General

33° DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO C

Ml 3, 19-20a; 2Ts 3, 7-12; Lc 21, 5-19

Ao escutarmos Jesus que nos fala, neste 33° domingo, de destruição, desastres naturais, sinais do céu, perseguições, aparecimento de falsos profetas e traições por parte dos nossos entes queridos, perguntaríamos o seguinte: onde está a Boa nova sobre Deus e a humanidade neste Evangelho?

Certamente, são manifestações da decadência do velho mundo, marcado pelo pecado, e das dores do parto de um novo céu e de uma nova terra. Pois, “sic transit gloria mundi”, como nos diz São Paulo, “passa a figura deste mundo” (1 Cor 7,31), passa a glória deste mundo. Todavia, somos chamados a encarrar a tragédia sombria nestes acontecimentos como canal de purificação da nossa fé.

Além disso, se prestarmos atenção, notaremos um ritmo profundo nestas alegações de Jesus, isto é, cada imagem do fim é permeada pela semente da esperança: “Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas, não vos alarmeis, … não será logo o fim”; “deitar-vos-ão as mãos e hão de perseguir-vos, … Eu vos darei língua e sabedoria”; “Sereis entregues até pelos vossos pais, irmãos, parentes e amigos… mas nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá”. Que consolo!

No caos da história, o olhar de Deus está fixo em nós. Com cuidado e ternura, Ele vela pelos seus filhos e nunca permitirá que alguém se desvie do caminho. Ele não é um juiz ameaçador, mas um guardião amoroso de cada fragmento de nós. E, mesmo que Ele expressasse os seus juízos sobre nós, o que escutamos do Salmo 98 é reconfortante: “O Senhor julgará o mundo com justiça e os povos com equidade”.

Caríssimos, o Evangelho conduz-nos ao ápice da história: por um lado, a obscura violência destrutiva; do outro, a ternura salvadora de Deus. E nesta luta contra o mal e contra o poder mortal e homicida presentes na história e na natureza, o Senhor adverte-nos, dizendo: “Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas”. É sim: a perseverança na espera é o segredo da nossa salvação, do encontro final com o amor de Deus.

Por isso, nada podemos fazer senão se não for procurarmos ser justos, isto é, temer o nome de Deus nesta vida – “para vós que temeis o meu nome, nascerá o sol de justiça” (Ml 3,20). E não se pode esperar o Senhor na inatividade, isto é, como diz Paulo, “ociosidade”, mas sim, devemos trabalhar arduamente “dia e noite, com esforço e fadiga” (2Ts 3,7.8), não nos esquivando, mas permanecendo no compromisso tenaz, humilde e diário de amar a Deus e ao próximo como a nós mesmos, e em Seu nome, como disse David Maria Turoldo (sacerdote, teólogo, filósofo, escritor, poeta e antifascista italiano, 1916-1992), “escolhendo sempre o humano em vez do desumano”.

A perseverança, de outro modo, não significa desistir. Mesmo que pareça vencer os mais violentos e cruéis do mundo, não desistimos. Mesmo quando toda a luta contra o mal (violência e guerra) parece infrutífera, não nos resignamos. Como verdadeiros discípulos de Cristo, não nos deixamos intimidar; depositamos a nossa confiança não nos “profetas da desgraça” que se fazem passar por Cristo ou que falam em seu nome – como Ele diz, “muitos virão em meu nome e dirão: ‘Sou eu’; e ainda: ‘O tempo está próximo’” –, mas em Deus, cujo fio condutor da história está firmemente nas suas mãos.

E o cântico Aleluia que acabámos de escutar encoraja-nos: “Erguei-vos e levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima”. É uma profecia de esperança: de pé, livres, levantemos a cabeça, olhemos para longe e para além, porque a realidade não é apenas aquilo que vemos; vem aí um Libertador, um Deus mestre de vida. Por isso, não nos desanimemos; continuemos a construir o Reino de Deus onde quer que estejamos, com simplicidade e fé.

De facto, já dizia S. Leão Magno nos seus Discursos, “acreditar sem hesitação naquilo que escapa à visão material e fixar o nosso desejo onde os olhos não alcançam é a força dos corações verdadeiramente grandes e a luz das almas firmes”. Sendo assim, precisamos urgentemente de um coração verdadeiramente grande e de uma alma firme, porque o tempo que nos separa do fim é uma oportunidade para testemunhar Cristo.

Deixemos, então, que a Sua Palavra floresça em nós, como diz um canto italiano: “Proclamamos a Palavra eterna: Deus é amor; esta é a voz que transcende o tempo, Deus é caridade: este mundo passa, os séculos passam, só os que amam jamais passarão” (NdT). Portanto, peçamos ao Senhor que nos ajude a permanecer vigilantes na fé.