XXXII Domingo do tempo Comum – Ano C
1ª leitura: 2Mac. 7,1-2.9-14; Sl. 16; 2ª leitura: 2 Ts. 2,16-3,5; Ev. Lc 20,27-38
Caríssimos/ e irmão/ãs, cristãos e comunidade, povo de Deus!
Estamos a viver o trigésimo segundo Domingo do tempo comum, estamos em torno da Palavra de Deus que alimenta a nossa fé, esperança e caridade. Como tem acontecido nos últimos 5 domingos, mais uma vez, hoje refletimos sobre o sentido do que vivemos, sobre o sentido da nossa vida: tudo vai terminar? O sentido não está nas coisas, não está nas nossas acções, não está nas realizações, mas na vida definitiva que se desenvolve através de tudo isso. Como podemos chegar à vida definitiva? A resposta pode ser: acolhendo a acção de Deus em nós e na história dia após dia. A história humana é feita das escolhas que os homens fazem, que não se fecham em si mesmos. Nós os cristãos e não so, somos o tempo. Ser tempo significa que nenhuma acção que fazemos é fechada em si mesma, mas reflete um passado e prepara um futuro. Não podemos sair dessa lei, justamente porque ela é a estrutura de nossa existência: somos o tempo. Quer dizer que acolhemos o poder da vida em pequenas doses, em pequenos fragmentos, mas devemos preservá-los, internalizá-los, para poder acolher os dons futuros e poder desenvolver toda a riqueza contida na dinâmica criativa. Se não acolhermos o dom, é claro que a morte prevalece em nós, há destruição.
Hoje lemos na primeira leitura uma parte do segundo livro dos Macabeus, no qual se revive o período de resistência do povo judeu contra Antíoco IV rei da Síria. Com um decreto e sob ameaça de morte, proibiu os israelitas de observar suas tradições e fingiu dobrar sua fé oferecendo-lhes riquezas e até sua amizade em troca de um acto: comer carne proibida pelas prescrições da Lei. A mãe e os filhos Macabeus enfrentam heroicamente a vontade do rei. O que lhes dá tanta segurança é a profunda convicção de um misterioso retorno à vida pela ressurreição do corpo. As suas declarações são estas: “Estamos prontos para morrer em vez de transgredir as leis dos pais” “Do céu recebi esses membros … e espero recuperá-los dele.” A verdade da ressurreição aparece pela primeira vez neste período dos Macabeus, especialmente no contacto com a amarga experiência do fim imaturo dos justos.
O fiel judeu está convencido de que o vínculo de amor estabelecido entre Deus e os justos já durante sua existência terrena não será interrompido pela morte, mas florescerá em uma comunhão perfeita e definitiva.
Na segunda carta aos Tessalonicenses, encontramos que a ressurreição é em Cristo, consolação, amor, gloria, graça e boa esperança. Em outras palavras São Paulo nos está a dizer que, a Morte é um dos princípios do dinamismo da vida Cristã. A ressurreição é um encontro com Jesus Cristo. É Ele que ressuscita os nossos corpos mortais. Jesus faz nascer um novo mundo, uma nova forma de vida, que significa fidelidade de Deus…; promessa realizada e experiência de fé.
O Santo Evangelho, retoma fortemente o tema da Vida Eterna. A ressurreição, é uma continuidade de nossa vida actual: “Ele é o Deus dos vivos”, por isso, Abraão, Isaac, Jacob estão vivos. A circunstância e os destinatários em que Jesus fala disso é a dos saduceus, que pertenciam à classe sacerdotal e como negavam a ressurreição, tentam colocar Jesus em dificuldade, apresentando-lhe um caso hipotético para ouvir como o teria resolvido. Os saduceus querem saber de Jesus: “diz que há vida após a morte, mas então, de quem ela será esposa, visto que sete homens a tiveram por esposa?”
A pergunta é uma ocasião que Jesus tem para apontar que a vida futura não tem a mesma dinâmica da vida presente, que a relação entre as pessoas é diferente. A vida futura baseia-se naquela acção de Deus que já nos torna vivos hoje. Com efeito, Jesus usa uma fórmula muito significativa: Deus nos torna dignos da ressurreição”, dignos da vida definitiva, porque Ele é Pai. Acreditar na ressurreição dos mortos não é fácil, porque a natureza humana é mortal.
O casamento é visto nesta parábola proposta pelos saduceus, como uma luta contra o mundo, mas para Jesus não é assim. Trata-se de despertar a descendência para que uma linhagem não se extinga. As obrigações familiares, religiosas e sociais estão subordinadas ao valor da pessoa que, criada à imagem do Bem, que nunca morre, é filho/filha do Deus eterno. A mulher nesta parábola é apresentada como objecto pertencente a uma família e utilizada para a sobrevivência de uma linhagem. Cristo veio para nos libertar desses fardos transmitidos obsessivamente por civilizações, classes sociais, religiões. Para o Senhor Deus ela não pertence a ninguém: ela é filha de Deus. Para Deus é a pessoa que importa.
No reino de Deus ninguém pertence a outrem, “são iguais aos anjos e, sendo filhos da ressurreição, são filhos de Deus”, ou seja, participantes da Vida que não termina. A união com a esposa é a de um amor totalmente respeitoso da liberdade alienável de ambos. Somente o amor de Deus, difundido no coração do cristão, pode garantir um amor duradouro, quando a simples afeição ou atração física parece ter desaparecido. Para Deus a morte é um novo nascimento, podemos compará-lo ao parto, à saída de um túnel em direcção à luz. Não podemos fazer brincadeiras sobre os mortos! Os saduceus estão a zombar sobre a morte!
Jesus dissipa a convicção de que a ressurreição é (apenas) a anulação dos efeitos da morte, e permite a retomada da vida, segundo as condições típicas do acontecimento terreno, em que, como sabemos, as relações infra-humanas – laços de sangue, laços familiares, amizades, constituem o aspecto mais importante; como se a ressurreição fosse uma projeção, uma extensão da vida terrena.
Respondendo à objeção dos saduceus, Jesus usa a linguagem apocalíptica e distingue o mundo presente do futuro, sublinhando a diferença radical, em relação ao presente, do futuro que Deus preparou para os justos. Os justos participam da vida de Deus, não mais da ameaça de sofrimento e morte. A meta final da esperança cristã é a íntima comunhão com Deus. Para esta vitória sobre a morte, a liberdade triunfa da preocupação em atenuar, senão superar, o medo da morte.
Não se pode excluir que nos ensinamentos de Jesus ha um convite a escolher o estado de virgindade para o reino de Deus; Sabemos que até São Paulo acreditava que a virgindade era uma condição melhor do que o casamento… E talvez seja por isso que nos “primeiros” 19 séculos da Igreja, os santos eram quase todos padres e freiras…
A Páscoa de Cristo, ou seja sua morte e ressurreição, é termos vida que não morre. A ressurreição não coloca mais o homem no centro, mas Deus: é Ele quem gera. A oposição entre os saduceus e a visão de Jesus pode ser expressa assim: a história dos homens tem seu ápice na geração e na morte; na história de Deus não se morre e não se gera, mas se é gerado. Nos assuntos da terra, uma mulher “tem” vários esposos; na história final, os gestos de “tomar” e “ter” um/a esposo/a desapareceram. A fé na ressurreição não é fruto de minhas expectativas, não expressa minha necessidade de ainda existir além das grandes barreiras da morte, mas fala da necessidade de Deus de dar vida, de guardar vidas “à sombra de suas asas” (Sl 16, 8). Ele “te cobrirá com as suas asas, debaixo delas encontrarás refúgio” (Sl 91, 4). A evidência da história, nossa experiência, diz tudo: a jornada do homem vai da vida à morte. Jesus inverte a perspectiva: a peregrinação do homem vai da morte à vida. A morte está atrás, não defronte ao rosto; à minha frente está o Deus dos vivos.
O mais importante não é a saúde, mas a vida, o mais importante não a morte, mas a eternidade
EXERCÍCIO DA SEMANA: como os saduceus, também nós cristãos não cremos na ressurreição? Que sentido tem a morte na nossa vida quotidiana?
Desejo a todos e a cada um santo e abençoado final de semana…