Leia: Isaías 55,10-11; Romanos 8,18-23; Mateus 13,1-23
Que maior desejo tem um agricultor? Que as sementes lançadas à terra brotem e frutifiquem. Isso depende dele, mas também do tipo de semente, da qualidade do terreno, das condições do tempo. Que aspiração maior tem Jesus, anunciador do Reino de Deus? Que a sua palavra encontre boa terra no coração de quem o escuta, que brote e produza frutos de vida plena. Isso depende do Semeador e do tipo de semente, a Palavra. Mas depende também da qualidade do terreno, o nosso coração, e das condições com que a recebemos.
Jesus sabe das resistências de muitos dos seus ouvintes, sobretudo dos «sábios e entendidos» (Mt 11,25) e de todos os que têm dificuldade em aceitar a mudança (a maioria de nós?). Mas a Boa Notícia do Reino não pode ser calada! Na boca do Mestre, as palavras se fazem parábolas: estórias simples da vida, carregando o fermento novo do Reino, para transformar vidas simples em histórias grandes de esperança. E assim, os evangelhos se encheram de parábolas: pequenas sementes, potentes, prontas a saltar das páginas do livro para os corações daqueles que estão dispostos a deixar-se fecundar pelos sonhos de Deus.
Jesus inventa até uma parábola para ilustrar a sua missão, que segue adiante, para lá de distracções ou oposições de quem recebe a Palavra. É a parábola do Semeador, tema do evangelho de hoje: «O semeador saiu a semear» (Mt 13,3ss). Não ‘um’ semeador, mas ‘o’ Semeador — ele, Jesus. Que, em última instância, continua a missão de Deus: a de fecundar a vida. Um semeador diferente de todos os outros, exagerado, excessivo. Lança sementes com mãos cheias, gestos amplos. Semeia na terra, mas também pelo caminho, entre as rochas, no meio de espinhos. Assim é o Semeador de sonhos divinos em nosso viver humano. Generoso, abundante. Não se deixa retrair pela inércia ou pela rejeição que encontra. Continua a semear, o Semeador Generoso. Não sabe agir doutro modo. Porque, na verdade, o Amor, a Compaixão, a Bondade, a Graça que ele tem para dar em semente são o seu modo de ser, o seu próprio Ser!…
Apesar das nossas desatenções ou resistências, ele continua semeando. Porque continua acreditando que o fruto vai chegar a seu tempo. É paciente. Obstinado. «Assim como a chuva e a neve, que descem do céu, não voltam para lá sem terem regado a terra, sem a terem fecundado e feito produzir,… assim a Palavra que sai da minha boca não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a sua missão» (Is 55,10-11: primeira leitura). Semear é acto tão grande quanto doar-se. De tal modo é assim que, no fim, ele mesmo se tornará Semente, «grão de trigo, lançado à terra, que morre para dar muito fruto» (Jo 12,24).
Sim, ele semeia hoje. Continuará semeando. Na minha vida, na tua. A semente é dom seu. Gratuito. Mas, para dar fruto, depende também de nós. De sermos «terra boa». Não necessariamente perfeita. Basta que sejamos acolhedores, abertos ao novo. Que queiramos pôr-nos em jogo, que nos deixemos interpelar pela Palavra do Mestre, às vezes incómoda, mas sempre fecunda. E a força da Graça fará o resto…
Sem falsas ilusões, porém. Porque o Maligno (que tem muitos rostos) está pronto a roubar-nos a semente ou a sufocar o seu crescimento em nós. Ou porque as nossas convicções são frágeis, «não temos raízes». E então cedemos diante de propostas mais ‘sedutoras’ ou sucumbimos nas horas difíceis. Ou porque deixamos que a mente e o coração sejam ocupados com «os cuidados deste mundo»: coisas que visam satisfazer o nosso ego ferido e carente (e nos fazem viver em modo de ‘sobrevivência’), em vez de guiar-nos pelos valores do Evangelho (que nos levam a viver em modo de ‘expansão’). Ou, simplesmente, porque as muitas ocupações quotidianas (quantas supérfluas?) não nos deixam tempo para acolher (ler, assimilar, no silêncio) a Palavra que o Mestre quer em nós semear. E ela cai pelo caminho. E é pisada, esquecida…
No entanto, «se conhecesses o dom que Deus tem para te dar!…» (Jo 4,10). Desejarias imensamente receber as suas sementes. E cuidar delas, como a mãe cuida da semente de vida que nela cresce, frágil mas cheia de promessa. Compreenderias que o dom que Deus planta no teu chão é destinado a frutificar em Amor, Compaixão, Bondade, Generosidade: a dar um gosto de plenitude à tua vida!… E não terias necessidade de ocupar-te com «os cuidados deste mundo», porque o teu ego carente seria curado pelo Amor Incondicional. E então descobririas que também és um semeador : em cada gesto, em cada palavra que sai de ti, semeias qualquer coisa no mundo. E aprenderias a espalhar sementes que fazem bem, que curam, que dão esperança.
Sim, porque, na genial visão de São Paulo, a vida do universo é um únicoe fantástico processo de gestação do Novo. Nesse processo, os filhos de Deus (aqueles que deixam germinar em si a Semente do Reino) têm um papel determinante:
«As criaturas esperam ansiosamente a revelação dos filhos de Deus (…), para que também elas sejam libertadas da corrupção que escraviza, e participem da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Toda criatura geme ainda agora e sofre as dores de parto» (Rm 8,19-22: segunda leitura).
Com o Mestre, saiamos sempre a semear. Sementes de Bem e de Cuidado, de Verdade e de Compaixão. Para que na terra e na humanidade de que somos parte germinem sempre mais frutos de Justiça, de Solidariedade e de Vida Abundante para todos.