Comemoração dos Fiéis Defuntos
(leia: Job 19,1.23-27; 2Coríntios 4,14—5,1; Mateus 11,25-30; João 6,39-46)
A morte não nos rouba a vida; abre-nos a outra dimensão! O que chamamos morte é o último acto da vida biológica como a conhecemos. Toda a vida no universo nasce, cresce, morre. O ser humano assusta-se diante da morte, porque ela lhe fala de um ‘limite’. Ao contrário dos outros seres, temos ‘consciência’ desse limite: sabemos que os nossos dias estão contados, que não podemos habitar nesta terra para sempre.
Para muitos, esse limite significa fim, vazio, escuridão, nada… A sociedade moderna procura disfarçar essa realidade, iludi-la, enchendo esta vida de frenesim, consumo, velocidade, ruído, diversão… Impedimos as crianças de participar do luto da avó ou do tio… Evitamos falar da morte… Disfarçamo-la com as máscaras de Halloween, última moda da sociedade consumista… Por isso, a morte continua a fazer medo, a ser vivida como fatalidade, com uma enorme carga de tristeza e vazio! O problema de fundo é a identificação: pensamos que a nossa vida ‘é’ o corpo biológico, e quando este se esgota, parece-nos que tudo acaba.
Mas há outra forma de encarar aquele ‘limite’: não como um fim, mas como uma ‘fronteira’ que nos abre a outra dimensão. Todas as grandes tradições sapienciais/espirituais da humanidade se interrogaram sobre o sentido da morte — para iluminar a razão da vida. E muitas delas intuíram que a morte não é a última palavra da vida. Aqui se enxerta a tradição judaica e a cristã. «Eu sei que o meu Defensor está vivo e que, no fim, se levantará sobre o pó. Depois do meu despertar, levantar-me-á junto dele e, em minha carne, verei a Deus!» (Job 19,25-26). O centro da fé cristã é justamente a convicção de que Alguém (Jesus de Nazaré) viveu com uma intensidade de amor tal, que superou a morte. A convicção de que em Jesus, morto-por-amor-e-ressuscitado, se abriu para todos os viventes a porta daquela ‘fronteira’ que supera a morte. «Sabemos que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus ressuscitará também a nós com Jesus» (2Cor 4,14).
A bíblia diz que a vida não é só ‘bios’ (biologia, vida finita); é possibilidade de ‘zoê’ (vida em plenitude). A morte continua a ser um limite, que nos lembra outros limites que devemos respeitar, para cuidarmos da vida, a respeitarmos em cada ser. Um limite a não temer (São Francisco chamou-a «irmã morte»), mas com o qual dialogar, aprender lições de vida. Aprender a viver cada dia intensamente, com a energia do Amor, a mais potente do mundo, que a morte não pode matar. «Eu te bendigo, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos», aos que acolhem a vida como dom e a expandem na doação.
A «irmã morte» é um convite a aprendermos o grande segredo da vida: «Embora em nós o ser exterior se vá arruinando, o ser interior se renova, dia a dia» (2Cor 4,16). A sociedade científico-tecnológica tem sabido cuidar do ‘ser exterior’, mas muito pouco do ‘ser interior’ (que dá sentido ao primeiro). O ‘ser interior’ é o núcleo íntimo da energia vital, a ‘zoê’, que se exprime em amor, doação, compaixão, solidariedade, força de bem… Quanto mais cultivamos esses valores, mais a vida em nós se expande, se plenifica… E é isso que faz grande a humanidade! Faz valer a pena viver — e não temer a morte! Isso nos permite deixar um rasto, uma herança de autêntica humanidade.
Essa herança é o que celebramos hoje, recordando os nossos caros defuntos. Na tradição africana bantu, há uma grande veneração pelos ‘antepassados’, sobretudo aqueles que deixaram um rasto de luz. São uma ponte entre o mundo visível, passageiro, e o ‘invisível’, imorredoiro, divino. Hoje não celebramos a sua morte, mas o coroamento da sua vida: experiências, testemunhos, valores que continuam a fecundar nossas vidas, nosso mundo. Recordá-los é dizer-lhes: Não me esqueci de ti, continuo a amar-te. A tua memória, o teu amor continuam a alimentar-me. Para Deus, ninguém é destinado a perder-se; nenhum gesto de amor e de bem se perde, pois carrega uma semente de ressurreição: «Esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum dos que ele me deu, mas que os ressuscite no último dia» (Jo 6,39).