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OS JOVENS NA IMBISA E OS IMPACTOS DA COVID-19

OS JOVENS NA IMBISA E OS IMPACTOS DA Covid-19
P. Rafael Sapato
rafaelbacianosapato@gmail.com
A Covid-19 é uma pandemia que colocou o mundo inteiro de joelhos. A humanidade quase que se viu impotente. É um mal com um impacto muito forte na sociedade, uma pandemia que não poupou nenhum sector social. Afectou muitas dimensões da vida humana com destaque a psico-espiritual. Semeou luto, provocou desemprego, agravou o nível de pobreza para as camadas já vulneráveis, o que se pode ver, a olho nú, nos países membros da IMBISA, isto é, África do Sul, Angola, Botswana, Eswatini, Lesoto, Moçambique, Namíbia, São Tomé e Príncipe e Zimbabwe.
O coronavírus atentou contra a comunhão africana devido ao distanciamento social e confinamento impostos pelos decretos de prevenção e combate ao coronavirus, mas sem sucesso, pelo facto de o africano levar no seu DNA a comunhão, a convivência, o estar juntos; aspecto manifestado de maneira particular nos momentos críticos da vida, como é o caso dos falecimentos. Este forte sentimento de estar juntos nos momentos críticos, fez com que a observância dos decretos, no âmbito da Covid-19, fosse grande desafio. Foi difícil controlar os números prescritos pelos decretos para casos de funerais.
Igualmente experimentou insucesso no aspecto da oração. Aqui também o vírus não levou a melhor. É verdade que as pessoas sofreram por não poderem se reunir e viver a sua fé em comunidade, nos seus locais habituais de culto, mas encontraram outras vias para manter a sua relação com o seu Criador. Foi tempo de muita criatividade, procurando salvaguardar a vida espiritual até que, felizmente, começaram os relaxamentos das medidas de prevenção e combate ao Corovirus.
Aquando da primeira variante dizia-se que as pessoas com mais risco eram as da terceira idade. O que relativamente sossegava as outras faixas etárias. O mesmo não aconteceu com as variantes que se seguiram imediatamente. Elas foram mais severas e pode-se arriscar afirmando que não tinham idade de preferência. Esta sua severidade, discriminada infecção e rapidez na propagação aumentou o pânico e ansiedade já instalados após a detecção do Coronavirus, um virus muito mortífero e de díficil controlo.
Os jovens poderão não representar uma grande fasquia, em termos de vitimas mortais por Covid-19, mas sobre eles pesam grandemente os impactos da Covid-19. Ora vejamos:
O encerramento de instituições de ensino pesou sobretudo nos jovens, que viram de repente os seus planos ou projectos e programas bloqueados e afectados, alguns quase a graduar outros prestes a terminar a sua formação em muitos âmbitos incluindo para o sacerdócio e vida consagrada. É dificil fazer uma ideia que impacto isso deve ter tido neles e que consequências terá a médio ou longo prazo, como fazia referência a Irmã Maria Gabriela Brito André das Irmãs Agostinianas, na sua reflexão sobre a Gestão dos Impactos da Covid-19 na vida Consagrada e na Evangelização, durante o workshop da IMBISA sobre o Aconselhamento Psico-espiritual, realizado em Agosto de 2022 na África do Sul.
As instituiçõe de ensino tiveram que se reinventar. A modalidade virtual ou participação remota nos programas académicos foi a solução encontrada para o prosseguimento das actividades. Isto também teve impacto nos jovens no sentido que em muitos casos requer investimento. Muitos jovens tiveram dificuldades devido ao aspecto financeiro dos jovens que, em geral, é limitado.
Alguns Provedores ou encarregados de educação foram levados ao desemprego, não podendo mais assegurar os encargos financeiros dos seus educandos. Face a este cenário negro, alguns jovens foram forçados a interromper o seu percurso formativo.
Em muitas paróquias é prevista a missa dos jovens. Face às restrições nas celebrações, devido a Covid-19, houve necessidade de reagendar as celebrações. Neste processo, algumas paróquias prestaram pouca atenção aos jovens. O foco foi mais para os adultos.
Os jovens são, em geral, energéticos e gostam de passear, encontrar-se, jogar, divertir e conviver. Os decretos de prevenção e combate ao Coronavirus incidiam precisamente nestes aspectos. É dificil imaginar um jovem com muita energia confinado todo o tempo. Como fica a gestão da sua adrenalina?
Todo o ser humano sonha. Em relação ao sonho, o Papa Francisco, na sua Exortação apostólica pós-sinodal Christus Vivit (Cristo Vive) tem palavras mais expressivas, pois no número 194 afirma: «Todo o ser humano, ainda antes de nascer, recebeu como prenda dos seus avós a bênção dum sonho cheio de amor e esperança: o sonho duma vida melhor. E, se não o recebeu de nenhum dos seus avós, houve seguramente algum bisavô que o sonhou e ficou feliz por ele, ao contemplar no berço os seus filhos e, depois, os netos. O sonho primordial, o sonho criador de Deus nosso Pai, precede e acompanha a vida de todos os seus filhos».
Esta pandemia pesou muito no aspecto dos sonhos e projectos, em outras palavra, o futuro. De repente a humanidade viu todos os seus sonhos desafiados e postos em questão pela pandemia. O futuro com a pandemia passou a ser uma grande incógnita porque a incerteza tomou conta de todos.
O Papa Francisco, no mesmo documento, que acima se fez referência, ensina que «Se os jovens e os idosos se abrirem ao Espírito Santo, juntos produzem uma combinação maravilhosa: os idosos sonham e os jovens têm visões» (Chv 192). Portanto, os jovens, para além de terem sonhos, como todo o ser humano, têm visão. Neste caso, não só viram os seus sonhos postos em questão, como também a sua visão, sem dúvidas, ficou afectada pela nebulosidade provocada pelos efeitos da pandemia.
Neste cenário de incerteza e horizonte confuso, algum jovem pode ter a tentação que teve Jó de amaldiçoar o dia que veio ao mundo (Job 3,1-10) e por não ter nascido numa melhor época. Mas o Jovem que crê em Cristo é chamado a cultivar a virtude da Esperança e convidado a dirigir-se a Cristo, jovem, como ele, segundo o ensinamento do Papa Francisco na mesma Exortação Apostólica. Porque Cristo não abandona aqueles que lhe procuram de coração sincero, como diz a Prece Eucarística IV e não recusa a quem lhe pede ficar com ele, a exemplo dos discípulos de Emaús, que caminhavam desanimados, mas a experiência da caminhada com Cristo ressuscitado deu-lhes um grande conforto e abriu-lhes um grande horizonte (Lc 24,29-30).
Os jovens, em geral, são considerados revolucionários. Ficando com Cristo, podem mudar o nosso mundo, como ele mudou tendo como ferramenta e método de trabalho, o amor ao próximo que teve a sua expressão máxima a cruz.
Este Cristo, que não abandona os que lhe procuram de coração sincero e não recusa de ficar com lhe pede, está dizendo agora a cada jovem no mundo e de modo particular aos Jovens da África Austral:«Tenho-vos dito isso, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende coragem; eu venci o mundo» (Jo 16,33).