Gn 12,1-4a; 2Tim 1,8b-10; Mt 17,1-9.
Caros irmãos em Cristo. Estamos no II Domingo da Quaresma e, neste Domingo, vamos concentrar as nossas atenções no mistério da transfiguração de Jesus para que possamos colher o significado deste mistério na nossa vida enquanto servos de Deus chamados à missão.
A Transfiguração de Jesus foi uma das manifestações de Deus. E, todas as vezes que Deus Se manifesta, o Seu poder e a Sua glória estão presentes. Isto significa que, na Transfiguração, Deus manifestou o Seu poder e a Sua glória em Jesus Cristo Seu Filho. É sobejamente sabido que Deus não Se manifesta em alguém sem que não tenha consigo um propósito, um projecto, uma missão para com a pessoa na qual Ele Se manifesta. Ora, se acreditamos que, a transfiguração é uma manifestação de Deus para com o seu servo para lhe confiar uma missão específica, então , devemos também acreditar que o conceito Transfiguração não se limita somente àquilo que Jesus fez no cimo da montanha diante dos Apóstolos que Ele escolhera. Deste modo, esta nova compreensão do conceito Transfiguração que ganha uma nova extensão abrange necessariamente a todos os que, ao longo da história da salvação, Deus escolheu e a eles Se manifestou de forma singular revelando-lhes o motivo da Sua manifestação, uma missão.
E, da mesma maneira que no cimo da montanha os Apóstolos sentiram o poder e a glória de Deus, assim também, todos aqueles que ao longo dos tempos receberam de Deus a missão de colaborar com Ele nos Seus planos, estes também sentiram-se envolvidos pelo poder e glória de Deus. Pois que, ninguém poderia aceitar renunciar o seu caminho para abraçar e seguir o caminho de Deus enquanto não fosse envolvido pelo Seu poder e glória. É, neste contexto que podemos compreender o “sim” de Abrão ( ainda não era Abraão), de Pedro, de Tiago e de João; e, com o tempo o sim de todos os Apóstolos menos um. Todos eles, ouviram a voz de Deus e sentiram o Seu poder e glória.
Mas apesar de estarmos a afirmar que, tanto Abrão como Pedro e seus companheiros deram o seu sim a Deus, é necessário que estabeleçamos entre eles algumas diferenças profundas. O estabelecimento destas diferenças é imperiosa e vital para nós enquanto escolhidos por Deus para dar continuidade à missão que Ele começou em Abrão passando por Pedro, Tiago e João e os demais Apóstolos. Em que consiste a diferença? Aqui temos:
Ao examinarmos a manifestação de Deus a Abrão notamos, de forma clara que, estamos diante de um homem totalmente obediente e disponível à vontade de Deus. É, com muita razão que, a Igreja nos ensina que Abraão é o nosso pai na fé. Porque uma vez convidado por Deus a deixar a sua terra, seus parentes e sua casa paterna, ele não fez nenhuma pergunta nem se adiantou com quaisquer propostas e, muito menos, fez exigências. E, o que veio da boca de Deus, como resultado desta total submissão, foram promessas nunca antes feitas a nenhum homem. Enquanto isso, o que aconteceu no cimo da montanha, depois que Cristo Se transfigurou, foi diferente: Pedro , adiantou-se a fazer, o que ele, seguramente, considerava grande e oportuna proposta, construir imediatamente três tendas. Ora, olhando com um olhar penetrante, podemos encontrar na proposta de Pedro a Jesus, a continuidade das tentação a que Jesus foi sujeito pelo diabo no deserto, só que desta vez usando a capa de Pedro. Afinal, o que significaria- para a missão de Jesus- a construção de três tendas no cimo da montanha? Seria, literalmente, parar com todo o projecto de salvação em nome do bem estar; seria distanciar-se dos pecadores que Ele vinha resgatar. Foi para evitar esse ” desastre” que o Pai interveio de forma contundente e disse aos Apóstolos: ” Este é o Meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O.” Como se pode ver, a reacção do Pai diante de Pedro e companheiros não foi necessária para com Abrão. Assim, a pergunta que devemos nos colocar é a seguinte: com quem nos identificamos? com Abrão ou com Pedro e seus companheiros? Se no nosso dia a dia nos identificássemos com Abrão na sua pronta disponibilidade em deixar sua terra, seus parentes e a sua casa paterna, seríamos excelentes colaboradores de Deus na missão que Ele nos confiou e, não precisaria que continuamente fossemos exortados a escutar Jesus Cristo o Filho muito amado do Pai a respeito deste assunto. É preciso acreditar que estamos num ” fogo cruzado” : por um lado a tendência sempre forte de nos agarrarmos a nossa terra aos nossos parentes e ao que herdamos da nossa casa paterna e por outro lado a tentação mais crescente de construir três tendas. Se quisermos ser realistas para connosco mesmos podemos dizer que além das tendas que construímos internamente, há muitas outras tendas que edificamos na nossa terra, junto aos nossos parentes e com destaque na nossa casa paterna. Quem escapará?
Ora, as motivações de fundo que fizeram com que Cristo Se transfigurasse diante dos Seus Apóstolos lá no cimo da montanha estão todas na segunda leitura. É nesta leitura aonde todos os que foram chamados por Deus poderão encontrar a razão do seu chamamento; é aqui aonde está o caminho de Deus o qual Paulo resume em três pontos principais:
- Aceitar sofrer pelo Evangelho apoiado na palavra de Deus;
- Por que o Evangelho salva e nos chama a santidade, não pelo nosso próprio mérito mas pela graça e misericórdia de Deus que nos é concedida em Cristo Jesus desde toda a eternidade.
- É Cristo o Salvador do mundo porque foi Ele que destruiu a morte e fez brilhar a vida e a imortalidade por meio do Evangelho. Portanto, O mistério da Transfiguração enquanto chamamento à missão, traz consigo, no mais fundo da sua essência duas características principais: o discipulado e o carácter pastoral.