General

Com Jesus no Deserto: Vencer as Tentações e Reordenar o Coração

Primeiro Domingo da Quaresma

Comentário ao Evangelho: Mateus 4,1–11

Queridos irmãos e irmãs, neste Primeiro Domingo da Quaresma, a leitura do Evangelho conduz-nos ao deserto com Jesus. Todos os anos, neste domingo, o texto bíblico das tentações de Jesus é proclamado porque ele é a porta de entrada da Quaresma. É como se a liturgia nos dissesse: “Se queres viver bem estes quarenta dias, aprende de Jesus no deserto.” E é precisamente isso que o evangelista Mateus nos oferece hoje.

O texto começa dizendo que “Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto” (v.1). A palavra grega usada aqui é ANĒCHTHĒ, que significa “ser levado com propósito”, “ser conduzido para cima”. Não é abandono; é direção divina. E o deserto (em grego ERĒMOS), “lugar solitário, árido” — não é castigo, mas pedagogia de Deus. A Quaresma é exatamente isso: um deserto espiritual, um tempo para reencontrar a verdade, para deixar cair as máscaras, para purificar a identidade. Também nós conhecemos os nossos desertos: momentos de crise, de silêncio, de solidão, de mudança, de perda. E é precisamente nesses lugares que Deus nos devolve a nós mesmos.

As duas primeiras tentações começam com a mesma frase: “Se és Filho de Deus…” (vv.3 e 6). O diabo, aquele que divide, que distorce a verdade, não começa as suas tentações com pão, começa com identidade. Notar que o Pai acabara de declarar no batismo: “Este é o meu Filho amado” (Mt 3,17). E imediatamente o diabo tenta semear dúvida: “Prova. Mostra. Faz algo extraordinário.” É a tentação de todos nós: provar o nosso valor pelo que fazemos, depender da aprovação dos outros, acreditar que só valemos quando produzimos. Jesus responde com a Escritura: “Não só de pão vive o homem…” (v.4; Dt 8,3). É como se dissesse: “Eu não preciso provar nada. Eu vivo da Palavra do Pai.” E aqui está uma chave para a Quaresma: voltar à nossa identidade de filhos amados, antes de qualquer desempenho.

Em todas as tentações, Jesus responde com a Escritura. A tentação (em grego PEIRASMOS), que significa “prova, teste” — é sempre uma distorção da verdade. A Palavra de Deus recoloca tudo no eixo. Sem Palavra de Deus, o coração fica vulnerável; com ela, o coração permanece firme. Por isso, a Quaresma insiste tanto na escuta da Palavra do Senhor: ela é alimento, critério e luz para o caminho.

Na terceira tentação, o diabo mostra “todos os reinos do mundo” (v.8) e diz: “Tudo isto te darei, se te prostrares diante de mim e me adorares” (v.9). É a tentação do atalho: glória sem cruz, sucesso sem esforço, influência sem serviço. Jesus responde: “Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele servirás” (v.10; Dt 6,13). Aqui aparecem duas palavras fundamentais: PROSKUNEŌ, que significa “adorar, orientar o coração”, e LATREUŌ, que significa “servir com a vida”. A Quaresma é também este combate: reordenar o coração, escolher quem adoramos, quem servimos, quem ocupa o centro da nossa vida. A vida cristã não é atalho; é caminho. É fidelidade. É adoração verdadeira. E quem não adora a Deus acaba por adorar outra coisa: poder, dinheiro, imagem, controle, sexo, trabalho, família.

Depois da prova, diz o texto evangélico: “O diabo o deixou, e os anjos o serviram” (v.11). A palavra grega que significa “servir” é DIĒKONOUN, de onde vem “diácono”: designa a acção de “cuidar, atender, servir com humildade”. A vitória de Jesus é silenciosa. Não há aplausos, não há espetáculo. Há fidelidade. E depois da fidelidade, vem a consolação. Também na nossa vida é assim: Deus não nos abandona no deserto; Ele envia “anjos” — pessoas, gestos, palavras, sacramentos — que nos sustentam. A Quaresma é tempo de reconhecer esses anjos e também de nos tornarmos anjos para os outros.

E o que significa tudo isto para nós, de forma bem concreta, neste início de Quaresma?

Primeiro, quando estivermos num “deserto” — seja um conflito familiar, uma doença, uma mudança inesperada, um momento de solidão ou uma crise interior — não devemos entrar em pânico. A Quaresma ensina-nos a perguntar: “O que Deus quer purificar ou revelar em mim através disto?”

Segundo, quando alguém ou alguma situação nos fizer duvidar do nosso valor, lembremo-nos de que as tentações começam sempre com: “Se és…” Hoje isso soa assim: “Se fosses bom, não terias falhado; se fosses competente, não estarias assim.” Nesses momentos, lembremo-nos de que somos amados por Deus antes de qualquer resultado. Esta é a base de toda a Quaresma.

Terceiro, quando sentimos uma ‘fome’ imediata — emocional, afetiva ou material — nem sempre devemos saciá‑la no momento. A Quaresma é o tempo de treinar o coração a não agir por impulso. Por isso, vale a pena fazer uma pausa e perguntar: ‘Isto vai realmente alimentar a minha alma ou apenas tapar um vazio?’

Quarto, quando nos sentirmos tentados a escolher o caminho mais fácil, devemos perguntar se esse atalho deixará a nossa consciência em paz; se não deixar, então não é o caminho certo.

E, por fim, quando estivermos cansados e acharmos que Deus nos abandonou, lembremo-nos de que os anjos só chegam no final (v.11). Podemos olhar para trás e identificar uma pessoa que nos ajudou, uma palavra que nos levantou, um gesto que nos sustentou. Esses são os “anjos” de Deus — e a Quaresma é tempo de reconhecê-los.

Queridos irmãos e irmãs, no deserto, Jesus descobre que a identidade vem do Pai, que a Palavra sustenta, que a fidelidade liberta e que a adoração orienta toda a vida. Que esta Quaresma seja o nosso deserto fecundo: um tempo para reencontrar a identidade, purificar o coração e renovar a fidelidade ao Pai. Que o Espírito nos conduza, que a Palavra nos ilumine e que os anjos de Deus nos sirvam quando já não tivermos forças.