General

A misericórdia de Deus não abandona os filhos que a vida magoou e deixou para trás

                         28.º DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO C/2025

Somos convidados, mais uma vez, a partilhar a Palavra que dá a vida e a comungar do pão e do vinho da esperança. As leituras que a liturgia deste domingo nos propõe dizem-nos: “Deus não abandona os seus queridos filhos que a vida magoou e deixou para trás. Ele está sempre disponível para nos purificar de todas as lepras que nos sujam e para nos oferecer a sua salvação”. As crises e dificuldades que enfrentamos ao longo da viagem da vida deixam, frequentemente, feridas que, com as nossas frágeis forças, não conseguimos curar. Incapazes de superar a nossa debilidade, afundamo-nos no desespero. Quem poderá devolver-nos a esperança, se não o Senhor?

Na primeira leitura tirada do livro de 2 Reis 5,14-17, Deus, através da acção do profeta Eliseu, oferece a sua salvação a um leproso estrangeiro, o general sírio Naamã. Curado da sua doença física e da sua cegueira espiritual, Naamã reconhece o poder de Deus e proclama a sua fé. Só Javé é o Senhor da vida, só Ele pode salvar. A misericórdia infinita de Deus derrama-se sobre todos os que n’Ele confiam, independentemente da sua origem étnica, da sua história de vida, da sua condição social ou religiosa; o que é decisivo é a disponibilidade para acolher o dom de Deus e para se deixar transformar por Ele.

segunda leitura, da carta do Apóstolo S. Paulo a 2 Timóteo 2,8-13, tem quase a forma de um testamento de despedida, numa altura em que Paulo sentia aproximar-se o tempo da sua partida deste mundo. Convida Timóteo a ter sempre diante dos olhos o exemplo de Cristo e o seu próprio exemplo, dedicando-se totalmente ao ministério que lhe foi confiado, mesmo que isso implique sofrimento, sacrifícios, incompreensões, perseguições; deve cumprir a missão que lhe foi confiada e esforçar-se ao máximo para levar a todos os homens a salvação de Deus. O cristão, na esteira de Cristo, não deve ter medo de enfrentar as dificuldades e as perseguições: é através desse caminho que chegará à salvação, à vida definitiva. Vale a pena lutar, vale a pena comprometer-se, vale a pena sofrer, vale a pena conhecer o cárcere, vale a pena dar a vida, a fim de que o Evangelho de Jesus alcance e salve todos os homens.

No Evangelho de Lucas 17,11-19, alguns leprosos pedem a Jesus que se compadeça deles. Como se sabe, os leprosos eram, no tempo de Jesus, o protótipo dos marginalizados. O aspecto físico de um leproso causava repugnância; o medo da contaminação fazia com que todos se afastassem do doente. Além disso, a teologia oficial considerava o leproso um impuro ritual (cf. Lev 13-14), um “castigado por Deus” por ter cometido pecados especialmente graves. O contacto com um leproso provocava impureza; por isso, o leproso não podia entrar nas povoações: vivia em lugares isolados e, quando alguém se aproximava, devia avisar da sua triste condição, gritando: “impuro, impuro”. Estava-lhe inclusive vedada a entrada na cidade de Jerusalém, a fim de não conspurcar, com a sua impureza, o lugar sagrado onde estava o templo. No caso improvável de cura, o leproso devia apresentar-se diante de um sacerdote, a fim de que este comprovasse o facto e lhe permitisse a reintegração na vida normal e voltar a participar nas celebrações do culto (cf. Lev 14).

Jesus, profundamente compadecido, dispõe-se a oferecer-lhes a salvação de Deus. Mostra-lhes o caminho que eles devem percorrer para chegarem à vida nova. Estranhamente, só um deles reconheceu os dons de Deus e se mostrou grato pela salvação que lhe foi oferecida. Era um samaritano, um “herege”. Por vezes são os “improváveis”, aqueles pelos quais ninguém dá nada, que mais facilmente se deixam “tocar” pela bondade de Deus. A salvação que Deus oferece, através de Jesus, destina-se a todos os homens, sem excepção, mesmo àqueles que o judaísmo oficial considerava definitivamente afastados da salvação. Além disso, o facto de aquele homem ser um samaritano mostra que, muitas vezes, são os “marginais, os desprezados pela sociedade e pela religião, os improváveis, os malditos os primeiros a reconhecer os dons de Deus, a acolhê-los, a manifestar a sua gratidão. Sejamos gratos à misericórdia de Deus e estejamos disponíveis e abertos aos marginalizados do nosso tempo, levando para eles esperança, cura e conforto nas suas tribulações do dia a dia.