Domingo XXVII do Tempo Comum (C)
Leituras do dia: Hab 1, 2-3. 2, 2-4; 2 Tim 1, 6-8. 13-14; Lc 17, 5-10
«Senhor, aumenta a nossa fé».
A este pedido ingénuo, uma resposta surpreendente: «Se tivésseis fé como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: ‘Arranca-te daí e vai plantar-te no mar’».
Não se trata de aumentar o volume ou a dosagem da fé, mas de torná-la mais ágil e hábil como um grão de mostarda. Ou ainda, muda-se a perspetiva a partir da qual se olha a fé, introduzindo como unidade de medida o grão de mostarda, proverbialmente o menor dos grãos, mas que surpreende o ambiente depois da sua germinação.
O que conta não é o tamanho ou a quantidade, mas sim a qualidade: fé como um grão de mostarda, como uma migalha; não aquela arrogante, mas aquela que, na sua fragilidade precisa ainda mais de Deus. Fé como um grão de mostarda, que pela sua mesquinhez tem mais confiança na força do Criador. Para um discípulo, basta apenas ter fé como um grão de mostarda, para mudar o desnorte da história. Aliás, a fé é um nada que é tudo. Leve e forte. Tem o poder de arrancar árvores e a leveza de fazê-las voar ao mar.
Eu vi árvores voar ao mar;
Vi o mar encher-se de amoreiras;
Vi, fora da metáfora, discípulos do Evangelho encherem o horizonte de feitos acima das forças humanas;
Vi missionários viverem em lugares e situações impossíveis, sem perderem o sorriso nos lábios;
Vi homens e mulheres, nas suas famílias, sobrecarregados de problemas sem solução, mas sem perderem a esperança;
Vi jornalistas, professores, médicos, juristas, ativistas sociais, jovens e até crianças, mergulharem-se no mar, para nunca mais voltar, à procura da verdade, da justiça, da dignidade humana, do bem comum.
Eis a fé como um grão de mostarda: minúscula, mas poderosa; capaz de mudar o desnorte da história. Pedir «aumenta a nossa fé» significa pedir que essa força motriz entre como linfa nas veias do coração.
Segue-se então uma pequena parábola sobre a relação entre senhor e servo, que começa como uma fotografia da realidade e termina com uma proposta surpreendente, no estilo típico do Senhor: «Quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: ‘Somos inúteis servos…’». Servo inútil significa não autossuficiente, não presunçoso; significa que a força que faz crescer a semente não pertence ao semeador; significa que a força que converte os corações não está no pregador, mas na Palavra. Deste modo, percebemos que somos apenas a flauta, e que o sopro que produz a melodia é de Deus.
Servo inútil é aquele que, numa sociedade que pensa apenas no útil, aposta na gratuidade, sem buscar o próprio ganho, sem se vangloriar de méritos. A sua alegria é servir; a sua realização é promover a vida em todas as suas dimensões, como embaixador de Cristo.
Nunca no Evangelho se diz que o serviço é inútil. Pelo contrário, ele é o novo nome da civilização inaugurada por Jesus, que veio para servir, não para ser servido. Como ele, também eu serei servo, porque esta é a única maneira de criar uma história diferente, humanizante, libertadora, que planta árvores de vida e de esperança no deserto e no mar. No serviço abnegado e no amor desinteressado eu exprimirei a minha fé, como um grão de mostarda.