XIII Domingo do T.C – Ano C
Solenidade de São Pedro e São Paulo
Textos para a meditação dominical: Actos 12:1-11; Sl 33; 2Tm 4:6-8.17-18; Mt 16:13-19
Neste final de semana, decimo terceiro Domingo do tempo comum, a Igreja celebra, numa só festa, dois grandes santos: São Pedro e São Paulo, dois pilares que contribuíram para o crescimento das primeiras comunidades cristãs. Dois discípulos tão diferentes, que em vida não faltaram discussões acesas, mas que, no final, entregaram a sua vida por Cristo.
A liturgia de hoje convida-nos a celebrar simultaneamente a fé de Pedro, a sua confissão na divindade de Cristo, o mandato que o próprio Senhor lhe confiou para ser o primeiro da Igreja e a continuidade desse mandato na pessoa dos seus sucessores. Trata-se, pois, de uma celebração que envolve toda a Igreja, aquele que representa Cristo na terra, o Romano Pontífice, e todos os membros da sua Igreja.
São Paulo, apostolo das gentes, é o missionário, o viajante para levar a pessoa de Jesus Cristo, morto e ressuscitado. São Paulo, após a sua conversão no caminho de Damasco, percorre o Mediterrâneo em quatro ou cinco viagens. Faz a sua primeira viagem na companhia de Barnabé: partem de Antioquia, param na ilha de Chipre e depois viajam pela Ásia Menor, actual Turquia. Empreendeu, várias viagens, rumo a Roma, mas já não em estado de liberdade. Preso e novamente preso, Paulo sofreu o martírio por volta do ano 67.
Pedro e Paulo: dois nomes que, ao longo dos séculos, personificaram toda a Igreja na sua ininterrupta tradição; Com a sua pregação e o seu testemunho, de facto, o Senhor «deu à Igreja as primícias da fé cristã», como dizemos nas orações da Missa. São Paulo proclama também as grandes obras que o Senhor nele realizou:
“O Senhor esteve perto de mim e fortaleceu-me. Cheguei ao fim da minha vida. Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. O Senhor me livrará de todo o mal e me levará em segurança para os céus…”
As passagens da Palavra de Deus na liturgia são particularmente significativas: aquele Pedro que faz a sua grande profissão de fé e que é declarado por Jesus como a “rocha” sobre a qual o Senhor edifica a Igreja, é aquele homem, com todas as suas limitações e o seu fervor, a quem Jesus chamou, formou, perdoou e libertou milagrosamente da prisão. Ele é uma obra-prima da graça, da misericórdia e do poder do Senhor. É assim que vive a sua missão e o seu testemunho.
A primeira leitura narra a perseguição dos discípulos de Jesus pelo rei Herodes, a morte de Tiago e a prisão de Pedro. A comunidade une-se imediatamente em oração e, nessa mesma noite, um anjo intervém para não os deixar sem guia e liberta-o milagrosamente. Aqui podemos citar o versículo do Salmo 33 de hoje:
“O Senhor livrou-me de todo o medo. Bendirei o Senhor em todo o tempo”.
Na segunda leitura, São Paulo escreve uma carta de despedida ao seu discípulo Timóteo, pois vê o seu fim aproximar-se e faz um balanço da sua vida. É interessante que Paulo compare o caminho da sua vida a uma corrida, no final da qual regozija-se por não ter perdido a fé, apesar de tudo o que tinha experimentado, e aguarda a coroa com que o vencedor será coroado. Recorda-nos também que tudo isto foi possível graças ao Senhor que estava perto dele e lhe deu força. No entanto, Paulo espera que a coroa seja dada não só a ele, mas a todos aqueles que aguardaram com amor a manifestação de Cristo.
No santo Evangelho, a passagem escolhida para a solenidade de São Pedro e São Paulo abre uma secção do Evangelho de Mateus (Mt 16,13-17,27) que pode ser considerada o ponto culminante, a parte mais importante. Nela, de facto, Jesus revela-se como o Filho de Deus, mostra a sua glória na Transfiguração, mas também apresenta-se como o Elias que havia de vir e como o profeta Jeremias que teve de sofrer por causa dos chefes de Israel. Nesta parte, há também dois anúncios da paixão. À revelação de Jesus segue-se o início dos tempos da Igreja: Pedro recebe a promessa das chaves do Reino dos Céus e, nestes capítulos, é mencionado várias vezes.
Este episódio ocorre em Cesareia de Filipe, capital de Gaulanitis e residência do seu tetrarca, Filipe, irmão de Herodes Antipas, marido de Herodias (cf. Mt 14,3). O imperador romano Augusto tinha doado a cidade a Herodes, o Grande. Quando a cidade foi reconstruída por Filipe, filho de Herodes, este mudou o seu nome de Panion, em referência ao templo do deus Pã que ali se erguia, para Cesareia de Filipe, em homenagem ao imperador. Augusto, como todos os imperadores romanos, também exigia um culto igual ao reservado aos deuses. Jesus escolhe Cesareia de Filipe para ser reconhecido como Cristo, filho do Deus vivo, precisamente para substituir os cultos pagãos dos homens.
Outra sugestão nos é dada pela posição geográfica de Cesareia: a cidade situava-se no extremo norte do território de Israel, nas encostas do Monte Hérmon, na nascente do rio Jordão, no extremo oposto de Jerusalém. É precisamente aqui que Jesus revela a sua natureza messiânica. O termo “Filho do Homem” é frequentemente utilizado por Jesus para designar a si próprio. Indica a fragilidade da sua condição humana, mas liga-o diretamente à profecia.
Jesus faz ainda aos seus discípulos uma pergunta, que também faz a nós hoje: “Mas vós, quem dizeis que Eu sou?”. Esta é uma pergunta que nos devemos colocar com mais frequência para percebermos onde se encontra a nossa fé. Pedro responde prontamente, mas Jesus adverte-o: “Não foi a carne e o sangue que to revelou, mas o meu Pai, que está nos céus”. A fé não é o resultado de uma caminhada racional, mas um dom que vem do Pai. Pedro torna-se então a “rocha” sobre a qual Jesus constrói a sua Igreja, uma comunidade composta por homens, não melhores que os outros, frágeis como todos os outros, que o próprio Jesus, com a sua morte e ressurreição, fortaleceu. A Pedro, que o traiu, que experimentou o arrependimento em lágrimas e que recebeu o perdão dos seus pecados, Jesus confia as chaves do Reino: quem melhor do que ele pode compreender o peso do pecado e a alegria do perdão? O dom da reconciliação, que não é um poder a ser exercido sobre os outros, mas a responsabilidade de estar próximo daqueles que lutam no caminho para o Reino de Deus. A resposta dos presentes já é indicativa, mas ainda não é suficiente. Há um limiar que só os discípulos, aliás, só Pedro, pode ultrapassar: Jesus não é apenas “um dos profetas”, mas o Messias, ou de forma mais especifica, “o Filho do Deus vivo”, isto é, o Revelador único e definitivo da face do Pai entre os homens.
Jesus é reconhecido como o Messias, tem o mesmo significado de “ungido”, “predestinado” que Israel esperava, o descendente do Rei David, aquele que libertaria Israel da sua nova escravidão. Jesus é muito mais do que o líder político que Israel imaginava. A sua libertação não é apenas política, mas muito mais profunda. É a libertação do pecado e da morte. Por esta razão, não foi possível que o próprio Jesus se apresentasse abertamente como o Messias, mas sim esperar que os próprios homens o reconhecessem como tal.
Neste texto, a posição da pedra angular em Sião, a aliança é mais forte. Jesus confia a Pedro e aos apóstolos o poder de “ligar” e “desligar”, isto é, de admitir ou excluir da comunhão da Igreja. Este é um poder disciplinar, mas acima de tudo deve ser utilizado para fins de misericórdia, é uma ratio extrema. O verdadeiro poder dado pelo Senhor à sua Igreja é o sacramento do perdão e da reconciliação.
Nós cristãos graça e o poder inefável do Espírito Santo, frequentemente somos chamados a discutir e até a desaprovar os contra-valores em relação a Deus e a Cristo; somos chamados a difundir uma nova doutrina pelo mundo, convocar testemunhas fervorosas e ousadas para tal.
A Igreja marcada desde as suas origens por aquelas características que mais tarde se tornariam as constantes do seu ser e da sua missão. É a graça divina que transforma os homens de fracos e incapazes em arautos de Cristo e do seu Evangelho. Será o Espírito Santo, depois de um primeiro Pentecostes, a sustentá-la no difícil caminho. A ressurreição tornou-se o credo essencial a transmitir aos homens. Estes são os valores que uniram os dois Apóstolos que hoje celebramos juntos. Com eles, celebramos a Igreja, como sacramento universal de salvação, celebramos a sua fidelidade a Cristo e o seu martírio, mas celebramos ainda mais a fidelidade de Cristo à sua Esposa. Celebramos a fé de Pedro, celebramos o apóstolo Paulo, que semeou para nós, vindos do mundo pagão, a semente do Verbo de Deus, da qual germinou a nossa fé. Também nós, com Pedro e Paulo, podemos dizer com alegria e firmeza, respondendo a Jesus: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”.
Hoje é a nossa festa, porque São Pedro e São Paulo devem continuar no meio de nós e a missão Apostólica. Os pilares deste esplêndido edifício, querido por Deus, que brotou de Cristo morto e ressuscitado, é povo de Deus.
Saudações fraternidade: ir. Pe. Alberto Sissimo, psdp