Partilha da Palavra de Deus do Domingo de Ramos/ANO C
I Leitura: Is 50,4-7
O trecho que constitui a primeira leitura do Domingo de Ramos deste ano é um tipo de texto característico da segunda parte do livro de Isaías (cc. 40-55). Este tipo de textos são comummente conhecidos como cânticos do servo de Deus. Dele fazem parte Is 42,1-4/5-9; 49,1-6; 50,4-9/10-11; 52,13-53,12. Nestes cânticos, incluindo Is 50,4-7, um servo misterioso carrega sobre si os pecados do povo e com a sua morte os expia, sendo glorificado por Deus. Em Is 50,4-9, o servo aparece como discípulo fiel a Deus, incumbido de ensinar, depois de aprender “como discípulo” e pronto a suportar os piores ultrajes: “apresentei as espáduas aos que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba”(v. 6). A descrição dos sofrimentos do servo vem depois retomada e desenvolvida no Quarto cântico (Is 52,13-53,12).
Em relação à questão de quem se trata? Quem é esse servo que sofre tanto pelo seu povo? Muitas respostas foram dadas a esta questão, incluindo a de se tratar do Povo de Israel, ou próprio segundo Isaías ou então o servo como um indivíduo que incorpora os destinos do seu povo, mas a tradição cristã viu nele a figura de Cristo (At 8,26-34), pois Jesus aplicou a si próprio esses textos (Lc 22,37; Mc 10,45), como se nota em toda a Quaresma, especialmente na Semana santa.
Salmo 22: “Meu Deus, meu Deus porque me abandonastes?”
O Salmo responsorial deste Domingo merece a nossa reflexão e meditação uma vez que pode servir de chave de leitura da Palavra de Deus, neste Domingo.
Este salmo é sagrado para os cristãos porque a sua introdução foi pronunciada por Jesus na cruz. O referido Sl está dividido em duas partes: a) vv. 2-22: Lamentação e súplica; b) vv. 23-32: Louvor e agradecimento. Na primeira parte, alternam-se comoventes lamentações e súplicas e o tom do salmista é oscilante entre a angústia e ardente procura de ajuda da parte de Deus; na segunda, o tom é mais sereno, quando o salmista contempla o impacto da intervenção divina sobre Israel (vv. 23-27), sobre os povos (28-29) e sobre as gerações passadas e futuras (30-32). Embora privilegie a primeira parte, típica do momento litúrgico que estamos a viver, o nosso salmo responsorial contém louvor na última parte (Sl 22,23ss), o que desde já nos indica que o sofrimento e a Paixão do Senhor Jesus não é um fim em si mesmo mas uma porta que se abre para a sua e nossa Ressurreição.
II leitura: Fl 2,6-11
É opinião comum dos estudiosos que Fl 2,6-11 é um hino cristão muito antigo, já conhecido antes do formato final da Epístola aos filipenses e que foi aqui inserido para exaltar a humildade de Cristo, a quem por isso mesmo, foi elevado acima de todos os nomes, com o nome de “Senhor.” Com efeito, são duas as partes que compõem este hino: humilhação de Cristo (vv. 6-8) e a exaltação de Cristo (vv. 9-11). Na primeira parte, merece a pena sublinhar o que diz o texto grego, no v.7: “heauton ekenōsen” (esvaziou-se a si mesmo), do verbo kenoun que no Novo testamento é usado apenas por S. Paulo com o significado de esvaziar, despojar ou mesmo anular. Ligado a este verbo temos pois o nome por que este hino é habitualmente conhecido ainda hoje, KÉNOSIS.
Na primeira parte, portanto (vv. 6-8), nota-se um movimento descendente vertiginoso: Cristo feito homem despojou-se livremente não da natureza divina mas sim da glória que por direito essa natureza lhe conferia, Ele preferiu privar-se dela para recebê-la apenas do Pai como preço do seu sacrifício, de facto, já na segunda parte (vv. 9-11), Deus o exaltou e lhe deu o nome que está acima de todos os nomes, que é Senhor. Nota-se então que a atitude de Jesus é diametralmente oposta a de Adão, o qual sendo homem quis apoderar-se das prerrogativas divinas, conforme a narração de Gn 3,5.22 (cfr. Ez 28,2.8). Fl 2,6-11 não é único mas sim o mais emblemático dos paradoxos paulinos sobre Cristo, se não vejamos: Deus enviou o seu Filho em carne idêntica a do pecado e como sacrifício de expiação do pecado, condenou o pecado na carne (Rm 8,3); “Jesus Cristo, sendo rico, se fez pobre por vós, para vos entiquecer com a sua pobreza” (2Cor 8,9).
Evangelho: Lc 19,28-40 e Lc 22,14-23,56
Dada a dimensão do Evangelho da Paixão, alias antecedido pelo Evangelho que introduz a procissão de ramos, é notável que neste domingo e durante toda a Semana santa há um convite acurado para a leitura, escuta e meditação da Palavra de Deus. Neste contexto, vamos apenas sublinhar dois aspectos típicos de Lc 19,28-40. Lc nota que é a multidão dos discípulos que aclamam a Jesus que entra em Jerusalém por milagres que tinham visto (vv. 37-38) e fazem-no usando palavras com que os anjos tinham anunciado o Nascimento do menino Jesus (Lc 2,14). Enquanto os discípulos se alegram com o “Rei” que entra triunfante em Jerusalém, os fariseus se incomodam com essa euforia a ponto de pedirem a Jesus que mandasse calar seus discípulos. Aos fariseus, Jesus responde com uma frase lapidar tipicamente lucana: “se eles se calarem, gritarão as pedras”(Lc 19,40), numa referência clara a um inevitável reconhecimento e louvor a Cristo, por parte dos que perseveram na fé até ao fim.
A Palavra de Deus neste domingo introduz-nos numa “Via sacra”, na qual somos convidados a caminhar com Jesus na sua Paixão, para com Ele ressuscitarmos, sendo fundamental neste caminho a escuta e meditação da palavra de Deus.