Partilha da Palavra de Deus do XXIII Domingo do Tempo Comum/ANO A
06/09/2026
I Leitura: Ez 33,7-9
Dada a multifacetada actividade do profeta, são várias as designações que este “porta-voz de Deus”, recebe no Antigo testamento (AT), sendo de sublinhar as seguintes: “Homem de Deus” (Dt 14,6; 1Rs 17,18); “Servo do senhor” (2Rs 9,17; Am 3,7; Zc 1,6); “mensageiro do Senhor” (Is 44,26; Ag 1,13); “Guarda” (Is 21,11); “Sentinela” (Is 52,8; Jr 6,17; Ez 3,17-21; 33,7; Os 9,1), entre outros. É precisamente com o título de sentinela que o profeta Ezequiel é tratado na passagem que constitui a I leitura deste Domingo e, de seguida, são delineadas as suas tarefas: escutar a palavra da boca de Deus e transmiti-la ao seu povo. Tanto nesta passagem (Ez 33,7) como na passagem paralela, no início do Livro (Ez 3,17-21), à tarefa esta associada a responsabilidade: se a sentinela não comunicar ao povo a palavra de Deus e esse povo vier a perecer, o profeta terá sua responsabilidade; ao contrário, se a sentinela chamar atenção ao povo em nome de Deus, fica ilibado da culpa de uma eventual dureza de coração do seu povo. O facto de esse comando que tinha sido dado no início do escrito, ser repetido nesta passagem mostra o quanto ele é importante, dentro das atribuições do profeta.
Nesta passagem chama igualmente atenção o apelativo “Filho do homem” (em hebraico, ben adam), dirigido a Ezequiel. No AT, “Filho do homem” é o modo idiomático de falar do homem ou da humanidade como colectividade (Cfr. Sl 8,4; 80,17=ser humano); Em Ez, o profeta recebe o título de “filho do homem, no sentido de mortal” (Cfr. Ez 2,1.6) fazendo um contraste entre a fraqueza e finitude do profeta e a majestade de Deus. Nos Evangelhos, Jesus utiliza esta expressão “Filho de homem” aplicando a si quer em referência ao seu ministério terreno (Mc 2,10), quer em referência à sua actividade futura, como juiz e salvador (Mc 8,38; Lc 12,8).
Podemos, portanto, entender o nosso trecho como sendo uma chamada de atenção sobre a grandeza de quem manda transmitir a mensagem (Deus) e a pequenez de quem a deve transmitir (o profeta, o filho do homem), donde a responsabilidade que essa tarefa acarreta.
II leitura: Rm 13,8-10
O trecho que serve de II leitura neste Domingo, um excerto da Epístola aos Romanos (Rm), traz “o Resumo de todos os mandamentos”, que é, amar o próximo como a si mesmo (Rm 13,9).
De uma leitura de conjunto de toda a Bíblia, emerge uma aparente tensão que aqui se traduz em pergunta: Mas afinal o que é mais importante: amar a Deus ou amar o próximo? O Novo testamento em geral e particularmente os ensinamentos de Jesus ajudaram a Igreja a ultrapassar o dilema do amor ao próximo (dimensão horizontal) que no AT, é sublinhada em passagens como Lv 19,18 e o amor a Deus (dimensão vertical) (Cfr. Dt 6,4-5). Foi Jesus que perante uma pergunta dos fariseus, recusou-se a indicar o maior mandamento da lei sem indicar o segundo: indicou o primeiro: amar a Deus e o segundo, amar ao próximo para, no final, acrescentar: “Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Cfr. Mt 34-40; 1Jo 4,20-21).
Evangelho: Mt 18,15-20
Uma leitura de Mt 18, ajuda-nos a entender que o tema da correcção fraterna predomina nesta passagem, primeiro com a narração da parábola da ovelha desgarrada (Mt 18,12-14) e, depois, com a inquietante pergunta de Pedro sobre quantas vezes se deve perdoar o irmão que ofende outro irmão (Mt 18,21-22), tudo isto com o objetivo de manter a caridade e a coesão na comunidade e/ou na Igreja. Neste sentido podemos perceber a inserção de Mt 18,15-20, neste contexto imediato.
O nosso trecho evangélico enumera os passos a serem trilhados para ganhar o irmão que peca: primeiro faz-se correcção directa e pessoal (v. 15); segundo passo, correcção com presença de testemunhas (v. 16); terceiro passo, correcção na Igreja. Se ele não der ouvidos nem à Igreja, ele mesmo se exclui do convívio da comunidade.
O Evangelho deste Domingo sublinha a importância e o papel do irmão (em grego, adelphos, com 39 vezes de presença dessa palavra em Mt), o papel da Igreja que deve se manter aberta sim, mas também coesa, guiada por aqueles a quem o Senhor deu as chaves (Mt 18,18; cfr. Mt 16,19), com a presença constante do mesmo Senhor, mesmo quando estão reunidos apenas dois ou três (Mt 18,20).