Irmãos e irmãs,
as três leituras que hoje escutámos colocam-nos diante de um grande mistério: Deus escolhe pessoas frágeis para realizar os seus desígnios, mas a obra continua a ser sempre de Deus. No Evangelho, Jesus faz aos discípulos uma pergunta que continua a ser dirigida a cada um de nós: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Esta é talvez a pergunta mais importante de toda a nossa vida. Não basta saber o que os outros dizem sobre Jesus, nem conhecer aquilo que a Igreja ensina acerca d’Ele. É preciso chegar ao momento em que cada um de nós responde pessoalmente, com a própria vida: «Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo».
Pedro dá esta resposta e Jesus declara-lhe: «Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja». É importante começarmos por aqui: Jesus não diz «edificarei a tua Igreja», mas «edificarei a minha Igreja». A Igreja é de Cristo. Não é propriedade do Papa, dos bispos, dos sacerdotes, dos movimentos ou dos fiéis. Somos todos servidores de uma obra que pertence ao Senhor. Santo Agostinho, ao reflectir sobre Pedro, ajuda-nos a compreender esta realidade profunda: Cristo é a verdadeira Pedra sobre a qual a Igreja está edificada, e Pedro participa dessa firmeza porque está unido a Cristo. Por isso, a autoridade na Igreja nunca pode ser entendida como um poder à maneira do mundo. Receber as chaves significa receber uma responsabilidade de serviço. O próprio Jesus nos ensina que quem quiser ser o primeiro deve fazer-se servo de todos.
A primeira leitura ajuda-nos a compreender o significado das chaves. Deus diz a Eliacim: «Porei sobre os seus ombros a chave da casa de David». A chave representa autoridade, mas representa também responsabilidade. Quem recebe uma chave recebe a missão de abrir, de cuidar, de administrar e de servir. No Evangelho, Jesus entrega as chaves a Pedro. São João Crisóstomo, ao comentar esta passagem, chama a atenção para a grandeza da missão confiada a Pedro: Cristo entrega-lhe uma responsabilidade sobre a sua Igreja, não para que Pedro se torne senhor dela, mas para que seja servidor do povo de Deus.
E esta Palavra coloca também diante de nós uma pergunta muito concreta: que portas estamos nós a abrir e que portas estamos a fechar? Uma palavra nossa pode abrir uma porta para alguém regressar à Igreja; mas uma palavra dura pode afastá-lo. Um gesto de misericórdia pode ajudar uma pessoa a reencontrar Deus; uma atitude de julgamento pode fazê-la pensar que não há lugar para ela na comunidade. A Igreja precisa de ser uma comunidade que abre as portas para Cristo, para a verdade, para o perdão, para a reconciliação e para a esperança.
Há ainda algo de muito bonito no Evangelho: Jesus conhece Pedro. Conhece as suas qualidades, mas conhece também as suas fragilidades. Sabe que Pedro o irá negar. Sabe que ainda não compreende plenamente o caminho da cruz. E, mesmo assim, Jesus chama-o e confia-lhe uma missão. Isto significa que Deus não escolhe pessoas perfeitas; Deus transforma pessoas disponíveis. Pedro não é a pedra porque seja naturalmente forte ou porque nunca tenha falhado. É pedra porque Cristo lhe dá a firmeza de que necessita.
Esta verdade também vale para cada um de nós. Muitas vezes podemos pensar: «Eu não sou suficientemente bom para servir a Deus. Tenho demasiadas limitações. Já falhei muitas vezes». Mas a história da salvação está cheia de homens e mulheres frágeis que foram transformados pela graça. São Paulo compreendeu profundamente esta realidade. Por isso, na segunda leitura, depois de contemplar os caminhos misteriosos de Deus, exclama: «Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus!». Paulo reconhece que os caminhos de Deus são muito maiores do que a nossa compreensão. Nós vemos apenas uma parte; Deus vê o todo. Nós vemos a fragilidade de Pedro; Deus vê aquilo que Pedro poderá tornar-se pela graça. Nós vemos as nossas limitações; Deus vê a missão que pode realizar através de nós.
E São Paulo dá-nos a chave para compreender tudo isto quando afirma: «Porque tudo é d’Ele, por Ele e para Ele». Tudo vem de Deus, tudo acontece por meio de Deus e tudo deve voltar para Deus. Esta afirmação impede-nos de transformar a missão cristã numa procura de prestígio ou de reconhecimento pessoal. Um sacerdote não deve procurar a sua própria glória. Um catequista não deve procurar a sua própria glória. Um ministro, um membro de uma pastoral, um responsável de uma comunidade ou qualquer cristão que desempenhe uma missão na Igreja não deve procurar a sua própria glória. Até Pedro precisa de compreender que a Igreja não é dele. Tudo é de Cristo.
Por isso, antes de perguntarmos simplesmente «o que devemos fazer?», precisamos de voltar à pergunta fundamental: «Quem é Jesus para mim?». O Papa Bento XVI recordava que ser cristão não começa simplesmente com uma decisão ética ou com uma grande ideia, mas com o encontro com uma Pessoa: Jesus Cristo. E é precisamente este encontro que dá sentido à nossa fé, à nossa missão e à nossa vida.
Jesus pergunta aos discípulos: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Não pergunta apenas o que dizem os livros, os teólogos ou as outras pessoas. Pergunta: «E vós?». A fé cristã não pode viver apenas de uma tradição recebida exteriormente. É preciso passar de uma fé simplesmente herdada para uma fé pessoal, vivida e testemunhada. Pedro responde: «Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo». E esta resposta muda tudo. Se Jesus é verdadeiramente o Cristo, se Ele é o Filho de Deus vivo, então não pode ocupar apenas um pequeno espaço na nossa vida. Se Ele é o Senhor, deve ser o centro da nossa existência.
Muitas vezes, talvez o nosso problema não seja não acreditarmos em Deus. Talvez o problema seja acreditarmos em Deus, mas continuarmos a querer ser nós próprios os senhores da nossa vida. Queremos seguir Jesus, mas sem deixar que Ele transforme as nossas escolhas, os nossos relacionamentos, os nossos projectos e as nossas prioridades. Contudo, Jesus continua hoje a perguntar a cada um de nós: «Quem sou Eu para ti?». E a nossa resposta não deve ser apenas uma frase bonita; deve aparecer na maneira como vivemos.
Vivemos num tempo em que muitas pessoas estão desiludidas com as instituições, e também com as instituições religiosas. Dentro da Igreja existem pecados, fragilidades, escândalos e incoerências. Não devemos escondê-los nem fingir que não existem. Mas precisamos de distinguir uma coisa fundamental: a santidade de Cristo não depende da perfeição dos seus discípulos. A Igreja é santa porque Cristo é santo e, ao mesmo tempo, é formada por pecadores que estão sempre a caminho de conversão.
Por isso, não podemos construir uma Igreja baseada apenas nas nossas preferências pessoais, nas nossas opiniões ou nos nossos interesses. Precisamos de permanecer unidos àquele que é a verdadeira Pedra: Jesus Cristo. E precisamos também de aprender a amar a Igreja mesmo quando reconhecemos as suas feridas, trabalhando com humildade para que ela seja cada vez mais fiel ao Evangelho.
A missão das «chaves» continua também hoje. De alguma maneira, cada cristão recebe uma responsabilidade. Os pais e as mães recebem a grande responsabilidade de educar os filhos na fé e nos valores do Evangelho. Os catequistas recebem a missão de transmitir a fé às novas gerações. Os sacerdotes recebem a responsabilidade de anunciar a Palavra de Deus, celebrar os sacramentos e acompanhar o povo que lhes é confiado. Os responsáveis e líderes das comunidades recebem a missão de cuidar das pessoas e promover a comunhão. E todos nós recebemos a missão de testemunhar Cristo no mundo.
Por isso, irmãos e irmãs, a Palavra de Deus convida-nos hoje a olhar para Pedro e, através dele, para a nossa própria vocação. Pedro era frágil, mas deixou-se transformar por Cristo. Pedro falhou, mas não desistiu. Pedro teve medo, mas aprendeu a confiar. E é precisamente este homem, com as suas forças e fraquezas, que Jesus escolhe para uma missão tão grande.
Também nós somos chamados, não porque sejamos perfeitos, mas porque Deus acredita naquilo que a sua graça pode realizar em nós. Não tenhamos medo das nossas fragilidades. Tenhamos, isso sim, medo de nos afastarmos de Cristo. Porque a nossa força não vem de nós mesmos. A nossa segurança está naquele que é a verdadeira Pedra.
Peçamos, portanto, ao Senhor a graça de podermos responder todos os dias, com sinceridade e com a nossa própria vida: «Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo». E que esta profissão de fé não fique apenas nos nossos lábios, mas se torne uma vida de serviço, de misericórdia, de comunhão e de testemunho.
Que o Senhor nos ajude a abrir portas e não a fechá-las; a acolher e não a excluir; a servir e não a procurar o primeiro lugar; a construir a unidade e não a alimentar divisões. E que, em tudo aquilo que fazemos na Igreja e no mundo, nunca nos esqueçamos de que a Igreja é de Cristo, a missão é de Cristo e a glória pertence somente a Deus.
Como nos recorda São Paulo: «Porque tudo é d’Ele, por Ele e para Ele. A Ele a glória para sempre. Amém.