Leituras: Ap 7,2-4.9-14 ; 1Jo 3,1-13 ; Mt 5,1-12
Caros irmãos em Cristo. Estamos no XXXI Domingo do tempo comum, ano A. Neste domingo celebramos a Solenidade de todos os Santos. A celebração desta Solenidade exige de nós, cristãos católicos de rito romano, o cultivo de uma espiritualidade aberta ao significado pleno do conceito santidade em toda a sua compreensão e extensão. Porque, na verdade, nós não estamos a celebrar a Solenidade de todos os Santos do nosso rito mas a de todos os homens e mulheres- conforme a primeira leitura – de todas as nações, tribos, povos e línguas que, durante a sua vida acreditaram, abraçaram e viveram as virtudes que Jesus mencionou no Santo Evangelho, as Bem- Aventuranças, quer movidos pela sua fé em Deus ou movidos pelo impulso natural de humanismo impresso por Deus na criação. Trata-se, portanto, de celebrar esta Solenidade não conforme os nossos critérios de homens, ainda, imperfeito mas de celebra-la segundo os critérios d’Aquele que é a fonte e o suporte de toda a Santidade, Deus cuja misericórdia é sem limites.
A primeira leitura desta Solenidade tirada do Apocalipse de São João apresenta-nos uma síntese das etapas mais importantes do processo, deste projecto de salvação de Deus, desde a sua intervenção mais expressiva na plenitude dos tempos até à escatologia, isto é, desde a etapa de realização até ao juízo final. Estas etapas trazem, de forma subjacente, a etapa de preparação do mesmo projecto.
É desta forma que a leitura começa por se referir de um anjo que subia da nascente trazendo consigo o selo de Deus vivo. Se estamos bem lembrados, Pedro, em algum momento dirigiu-se a Jesus dizendo que Ele era o Filho do Deus vivo. Por isso, vamos tomar o termo anjo no sentido de enviado , porque está claro que não se trata de um anjo à semelhança dos demais anjos enviados e Deus, isto por causa de um pormenor, o selo. Que se saiba, os anjos de Deus somente trazem uma mensagem ou efectuam uma acção. Mas o anjo referido nesta leitura não só traz uma mensagem e manifesta acções, Ele traz, acima de tudo, um selo do Deus vivo. Isto leva-nos a acreditar que trata-se do selo da Aliança. E, o enviado de Deus que trouxe consigo uma Aliança, a Nova é eterna Aliança no seu Sangue é Cristo. Cristo veio para marcar com este selo, os servos de Deus, à semelhança do que aconteceu no Egipto com o povo de Israel quando as portas das casas foram marcadas com o sangue do cordeiro como sinal de sua pertença a Deus condição para não serem atingidos pelo anjo da morte.
O anjo em referência, ao ordenar que nada fosse feito de mal antes de marcar com o seu selo os servos de Deus estava a afirmar uma missão, a sua missão, ou seja, a Evangelização de todas as nações, tribos, povos e línguas. Porque é à partir do Evangelho que nascem ou são identificados os servos e, ao mesmo tempo, filhos de Deus. Felizmente, o coração do Evangelho anunciado por Cristo, o enviado de Deus, não exalta religiões mas virtudes, graças e qualidades. É por isto que a abrangência do seu impacto é de imensas multidões dos que são considerados dignos de serem assinados com o seu selo. É o Evangelho de Cristo que, estando ainda em marcha, valida as qualidades daqueles que ainda O não conhecem afirmando, assim , serem suas ovelhas; quanta misericórdia!
Ora, os que são marcados pelo selo recebem um estatuto, o de filhos de Deus. Mas trata-se de um estatuto frágil, constantemente ameaçado , exigindo assim vigilância e perseverança nas tribulações por parte daqueles que o recebem. Receber este estatuto é um grande passo mas não é a meta, antes o começo. É por isto que a segunda leitura fala dos que são consagrados como filhos de Deus mas que ainda não se manifestou o que se serão. Quando esta manifestação acontecer serão semelhantes a Deus porque O verão face a face. Significa que, da marcação com o selo até o regresso à condição primeira da nossa existência, imagem e semelhança de Deus, há muita “luta”. Nós hoje, estamos exactamente neste período exigente.
Mas o que aconteceu para que o caminho de santidade seja uma luta que exige vencer muitas tribulações? Para a compreensão deste tema precisamos verificar a identidade do Anjo de Deus e a sua legitimidade. Cristo apresentou-se junto de nós como Caminho, Verdade e Vida. E, por que razão Ele disse que era isto? Por causa do pecado original protagonizado pelo diabo. O pecado original significou desencaminhamento , mentira e morte. A partir de então formou-se uma corrente forte que arrastava a humanidade inteira para o abismo eterno. Foi por isto, que Deus rompeu o seu silêncio e depois de um longo período de preparação enviou o Seu próprio Filho, na plenitude dos tempos, cuja missão era a de demonstrar à humanidade inteira que o caminho do retorno a Deus era possível. Ele próprio venceu a corrente do mundo e ensinou a humanidade a fazer o mesmo. Não porque a humanidade não estivesse a lutar. Ele trouxe eficiência absoluta nesta luta por isso valorizou os que lutavam apesar das deficiências. Assim, os que lutavam revestidos de fragilidade, com Ele lutam com toda a certeza sabendo para aonde vão, porque Ele é Caminho, Verdade e Vida. Os que partirem deste mundo vencedores, estarão diante do trono e do Cordeiro puros, gloriosos e cantando hinos de salvação. As “armas” que o anjo Senhor coloca à disposição dos servos de Deus estão todas no Evangelho e têm um nome: Bem Aventuranças.