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Amar Deus no rostro do próximo

Comentário Bíblico-Pastoral de Mateus 22,34-40

XXX Domingo do Tempo Comum

Introdução

O Evangelho deste domingo (Mt 22,34-40) conduz-nos ao coração da fé cristã. Entre todas as perguntas dirigidas a Jesus, esta é certamente uma das mais importantes: «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?» (Mt 22,36). A pergunta surge nos últimos dias da vida pública de Jesus. Depois de vários debates com os fariseus e doutores da Lei, um deles aproxima-se para O pôr à prova. A questão não é meramente académica. Trata-se de saber qual é o fundamento de toda a vida religiosa e o centro da relação entre Deus e o seu povo. Também nós, no meio de tantas atividades, preocupações e responsabilidades, precisamos de regressar ao essencial. O Evangelho convida-nos a redescobrir aquilo que verdadeiramente sustenta a vida cristã: o amor.

  1. «Escuta, Israel»

Jesus responde citando a oração mais sagrada do povo de Israel: «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente» (Mt 22,37). Estas palavras pertencem ao Shemá Israel: «Escuta, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças» (Dt 6,4-5). Tudo começa com um convite: «Escuta». A fé nasce da escuta. Antes de falar a Deus, somos chamados a ouvi-Lo; antes de agir em seu nome, devemos acolher a sua Palavra. Foi esta a atitude de Samuel: «Falai, Senhor, que o vosso servo escuta» (1 Sm 3,10). E Jesus proclama bem-aventurados: «Felizes os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática» (Lc 11,28). Vivemos num mundo cheio de ruídos, opiniões, mensagens e distrações. Muitas vezes queremos fazer, organizar, planear e resolver tudo. Porém, quem deixa de escutar Deus corre o risco de escutar apenas a si próprio.

  1. Amar Deus com todo o ser

Jesus convida-nos a amar Deus com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente. Na linguagem bíblica, o coração não é apenas o lugar dos sentimentos. É o centro da pessoa, onde se tomam as decisões fundamentais. Amar Deus com todo o coração significa colocá-Lo verdadeiramente no centro da vida. Amar Deus com toda a alma significa amá-Lo com toda a nossa existência, em todas as circunstâncias da vida. Amar Deus com toda a mente significa procurá-Lo através do discernimento, da reflexão e da busca sincera da sua vontade. Jesus não pede um amor parcial nem ocasional. Pede um amor total, capaz de envolver toda a pessoa. Mas a sua resposta não termina aqui.

  1. A grande novidade de Jesus

Depois de citar o Shemá, Jesus acrescenta imediatamente: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo» (Lv 19,18). E afirma: «O segundo é semelhante ao primeiro» (Mt 22,39). Aqui encontramos a verdadeira originalidade da resposta de Jesus. Ele não apresenta dois mandamentos independentes; une-os de forma inseparável. Não se pode amar Deus sem amar o próximo. Não se pode prestar culto a Deus ignorando os irmãos. Não se pode proclamar amor a Deus enquanto se despreza, exclui ou fere o outro. São João exprime esta verdade com impressionante clareza: «Quem não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê» (1 Jo 4,20). O próximo torna-se, assim, o lugar concreto onde se verifica a autenticidade da nossa relação com Deus.

  1. Amar Deus no rosto do próximo

O título deste Evangelho poderia resumir-se numa única afirmação: amar Deus no rosto do próximo. No texto grego, a palavra traduzida por «próximo» é plēsíon (πλησίον), que significa literalmente «aquele que está perto». Contudo, Jesus amplia profundamente este conceito. O próximo não é apenas quem vive ao nosso lado ou pertence ao nosso círculo. É toda a pessoa que Deus coloca no nosso caminho. Jesus não diz apenas que devemos amar os outros; convida-nos a reconhecer neles a presença do próprio Deus. Esta verdade atinge a sua expressão máxima em Mateus 25, quando Jesus declara: «Tive fome e destes-me de comer; tive sede e destes-me de beber; era estrangeiro e acolhestes-me» (Mt 25,35). E conclui: «Tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes» (Mt 25,40). O pobre, o doente, o abandonado, o migrante, o idoso esquecido e toda a pessoa que sofre tornam-se lugar de encontro com Cristo. Por isso, a vida cristã não consiste apenas em procurar Deus nos momentos de oração ou nos espaços sagrados. Consiste também em reconhecê-Lo nos rostos concretos das pessoas que encontramos todos os dias.

  1. Um amor sem fronteiras

Jesus vai ainda mais longe. Para Ele, o próximo não é apenas quem nos é simpático, quem pertence ao nosso grupo ou quem partilha as nossas ideias. O discípulo é chamado a amar sem fronteiras. No Sermão da Montanha, Jesus ensina: «Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem» (Mt 5,44). Esta é uma das maiores novidades do Evangelho. Amar quem nos ama é natural. Amar quem nos faz bem é fácil. Mas amar quem nos magoa, perdoar quem nos ofende e continuar a reconhecer a sua dignidade é sinal de que o amor de Deus está verdadeiramente a agir em nós. Quando aprendemos a ver cada pessoa com o olhar de Cristo, começamos a amar Deus no rosto de todos.

  1. Amar como Cristo amou

O Evangelho não nos diz apenas quem devemos amar. Mostra-nos também como devemos amar. O Novo Testamento utiliza frequentemente a palavra grega agápē (ἀγάπη) para designar o amor próprio de Deus. Não se trata de um sentimento passageiro nem de simples afeição humana. A agápē é um amor gratuito, fiel, misericordioso e oblativo; um amor que procura o bem do outro sem esperar recompensa. É este amor que se torna visível em Jesus Cristo. A medida do amor cristão não é a simpatia, a utilidade ou a reciprocidade. A medida é o próprio Cristo. Jesus amou gratuitamente. Serviu sem procurar reconhecimento; perdoou sem exigir garantias; acolheu os pecadores; aproximou-se dos excluídos; lavou os pés aos discípulos; e entregou a própria vida pela salvação de todos. Por isso, diante de cada situação da vida, o discípulo não pergunta apenas: «O que devo fazer?» Pergunta sobretudo: «Como amaria Cristo nesta situação?»

  1. Toda a Lei se resume no amor

Jesus conclui: «Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas» (Mt 22,40). Ele não está apenas a resumir a Lei. Está a revelar o seu fundamento mais profundo. Toda a Escritura converge para esta verdade: Deus chama o seu povo a participar do seu próprio amor. São Paulo compreendeu bem esta realidade quando escreveu: «Quem ama o próximo cumpriu a Lei» (Rm 13,8). E acrescenta: «Toda a Lei se resume numa só frase: Amarás o teu próximo como a ti mesmo» (Gl 5,14). Sem amor, a religião transforma-se em formalismo. Sem amor, a autoridade transforma-se em domínio. Sem amor, a missão reduz-se a ativismo. Sem amor, até as melhores obras perdem a sua alma.

  1. O amor é dom antes de ser mandamento

Contudo, ninguém consegue viver este amor apenas pelas próprias forças. O amor cristão não nasce simplesmente do esforço humano. Nasce da experiência de sermos amados por Deus. São João recorda-nos: «Nós amamos porque Ele nos amou primeiro» (1 Jo 4,19). E São Paulo escreve: «O amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rm 5,5). Antes de ser uma exigência, o amor é uma graça. Antes de ser uma tarefa, é um dom. Antes de ser um mandamento, é uma participação no próprio amor de Deus.

Conclusão

No final da vida, Deus não nos perguntará quantos cargos ocupámos, quantos projetos realizámos ou quantos êxitos alcançámos. Perguntar-nos-á pelo amor. Não pelo amor que proclamámos com palavras, mas pelo amor que se tornou serviço, compaixão, perdão, acolhimento e entrega. Os rostos concretos que Deus colocou no nosso caminho tornar-se-ão a medida da nossa resposta ao seu amor. Cada pobre acolhido, cada ferida curada, cada reconciliação promovida, cada gesto de bondade realizado no silêncio.  Tudo isso permanecerá porque, como nos recorda São Paulo: «A caridade jamais passará» (1 Cor 13,8). A última palavra da vida cristã não será o sucesso, o prestígio ou o poder. Será o amor. Toda a vida cristã consiste em aprender, dia após dia, a reconhecer Deus no rosto do próximo e a revelar o rosto de Deus através do amor. Quem aprende a amar o próximo descobre que, na realidade, estava a amar o próprio Deus.