Leia: Sabedoria 6,12-16; 1Tessalonicenses 4,13-18; Mateus 25,1-13
Preparados para a festa de núpcias? É o Esposo que nos convida. Há só uma condição: ter as lâmpadas acesas, para sair ao seu encontro. Jesus volta a falar-nos da sua paixão: o Reino dos Céus — o Mundo Novo, ao qual Deus nos chama a entrar e ser co-edificadores, seguindo o estilo de vida e a palavra de seu Filho. Uma realidade tão rica e complexa, da qual se pode falar apenas por símbolos, comparações, estórias. Muitas estórias. Como esta das virgens, suas lâmpadas, o esposo e o banquete nupcial.
Na cultura judaica da época, o casamento dava-se em duas etapas. Na primeira, fazia-se a promessa-compromisso matrimonial, mas os noivos permaneciam em casa de seus pais. Na segunda, dava-se o acto formal: o esposo ia buscar a esposa à casa paterna e introduzia-a em sua casa. Nessa altura, as jovens amigas da noiva (as ‘virgens’ do evangelho) acompanhavam-na no cortejo nupcial até à nova casa, onde acontecia o banquete.
Esse é o pano de fundo da parábola de hoje. Que encaixa bem na linguagem bíblica das imagens e símbolos matrimoniais para falar da relação entre Deus e o seu povo. Deus é um Esposo que ama perdidamente a sua esposa, Israel. Escolheu-a entre muitos povos, selou com ela uma aliança de sangue. Quando ela se extravia, Ele vai em busca dela. Outro apelativo bíblico do povo de Deus é ‘virgem’. No NT, Jesus é apresentado como o Esposo. A Igreja, novo povo de Deus, é a esposa ou virgem. Chamada a viver a relação com o seu Senhor como um banquete nupcial. Às vezes, porém, falta-lhe luz na lâmpada, para iluminar os seus caminhos e entrar na sala da festa.
Tal era o caso de muitas comunidades cristãs, alguns decénios após a morte e ressurreição de Jesus. O evangelho que anunciavam encontrava dificuldade em penetrar no ambiente social; o sonho do Mundo Novo demorava a realizar-se; a vinda definitiva do Senhor tardava a chegar. Muitos cristãos desanimavam. Alguns voltaram à vida pagã passada, outros acomodaram-se à situação reinante. Desistiram de interpelar o mundo com o seu testemunho. Esqueceram a sua missão de ser fermento, sal, luz. Adormeceram…
Mateus desperta a sua comunidade com esta parábola do Mestre. Válida para todos os tempos e lugares. Pertinente para nós, hoje. As dez virgens são o povo de Deus. Dez é símbolo de totalidade. Mas a comunidade é cheia de diversidade: cinco são diferentes das outras cinco. Umas são insensatas, superficiais; outras são sábias, previdentes. Estamos todos aí representados. Mais. Cada um de nós é essa totalidade e diversidade. Quem quer que sejamos, estamos todos sujeitos ao desgaste do tempo, às desilusões dos sonhos, à ameaça dos medos, às incertezas do caminho. Muitas vezes, vacila em nós a fé. Cedemos à lógica puramente humana.
Acomodamos-nos. Dormitamos…
Mas é justamente «no meio da noite», nas horas de escuridão, que precisamos de ouvir um brado que nos desperte para a luz: «Aí vem o Esposo, ide ao seu encontro!» Não é uma ameaça, mas uma voz de esperança, um convite a sair de nós e do nosso torpor. Não diz respeito apenas aos ‘últimos tempos’, à vinda final de Cristo; diz respeito ao compromisso diário com a vida e com o Evangelho. Esse é o melhor modo de estarmos preparados para acolher o Esposo que vem. Que vem quotidianamente, em cada oportunidade que nos é oferecida para edificarmos a vida. Para transfigurarmos cada instante presente em Reino, Mundo Novo.
Então, o que precisamos fazer, cada dia, é escutar a voz do Esposo. E levantar-nos, acender nossas lâmpadas, e pôr-nos novamente a caminho. Com decisão. E, com Ele, sermos co-criadores da vida.
Esta é a hora da prova: somos sensatos ou superficiais? temos raízes ou vivemos na epiderme? temos óleo suficiente para o caminho? quão luminosa é a nossa fé, para atravessarmos a névoa das crises e das turbulências do tempo presente?…
Se nos deixamos tomar pelo desânimo, ou se nos acomodamos à situação dominante, ao “todos fazem assim”, então, a nossa Lâmpada apaga-se. A noite faz-se densa. Mas também o Óleo não é suficiente para as exigências da estrada, se a nossa oração é rotina, sem combate; ou se a nossa fé é intimista, sem compromisso social. Um cristianismo assim não interpela ninguém. Não tem fibra nem chama. É um cristianismo apagado… Não adianta que sejamos muito devotos, que digamos constantemente «Senhor, Senhor!», mas não saibamos
vê-Lo na vida, no rosto de nossas irmãs e irmãos desfigurados, nas situações dolorosas da Igreja ou do mundo. Ele nos responderá: «Em verdade vos digo: não vos conheço».
E não adianta pedirmos às virgens sensatas um pouco do seu Óleo. Elas não no-lo dão. São egoístas? Não. Elas não podem dar! Porque há coisas que dependem apenas de cada pessoa. Ninguém pode amar no meu lugar, ser honesto por mim, buscar Deus em vez de mim. O amadurecimento humano e espiritual é um processo
pessoal. Às vezes doloroso, mas só acontece em primeira pessoa. Os outros podem ser um apoio, um estímulo, uma orientação, mas não podem fazer o processo em meu lugar…
Reacendamos nossas Lâmpadas! O mundo precisa dum cristianismo que arda, que seja profecia, esperança. Um cristianismo que denuncie as estruturas de pecado. O mundo precisa de cristãos maduros, corajosos, fortes na fé. Que ardam pelas melhores causas da humanidade. Para que a vida seja um banquete onde haja lugar para todos. Onde todos aprendamos a amar e servir. Como o Esposo.