Domingo XI do Tempo Comum (A)
Leituras do dia: Ex 19,2-6a; Salmo 99; Rom 5,6-11; Mt 9,36–10,8
A liturgia deste domingo convida a contemplar o mistério da generosidade de Deus. No Evangelho, perante o sofrimento da multidão, Jesus confia aos discípulos a sua própria missão. O envio cumpre-se com uma ordem categórica, que deve ecoar hoje na consciência cristã: «Recebestes de graça, dai de graça».
O mandato de «curar os enfermos, sarar os leprosos e expulsar os demónios» não constitui um privilégio, mas uma missão a ser exercida na mais estrita gratuidade, pois o poder e a glória pertencem exclusivamente a Jesus. Os discípulos atuam apenas como o prolongamento da sua mão misericordiosa. Fica, assim, excluído qualquer direito de “comercializar” ou reter um dom que lhes é inteiramente alheio. Privatizar as graças recebidas não é apenas reprimir o agir de Deus, mas desfigurar a própria face de Cristo.
Esta mesma gratuidade brilha na primeira leitura. Deus toma a iniciativa absoluta de libertar o Seu povo e de o constituir como um «reino de sacerdotes». A missão sacerdotal é, por excelência, a de ser uma ponte: aproximar o povo de Deus e Deus do povo. Como recorda São Paulo na segunda leitura, esta mediação atinge a sua plenitude em Jesus, que morreu pela humanidade quando esta ainda se encontrava na indignidade e no pecado. A reconciliação opera-se por puro amor, sem qualquer mérito prévio.
Pelo Batismo, cada fiel é inserido neste mistério e tornado colaborador ativo da mesma missão de Cristo. Hoje, este apelo interpela de forma direta e urgente. O diagnóstico do mundo atual revela uma sociedade enferma nos seus valores mais elementares. Multiplicam-se as consciências anestesiadas, onde o utilitarismo económico substituiu a lógica do dom. Os leprosos da exclusão e da solidão proliferam nas cidades e nas aldeias, e os demónios do egoísmo destroem vidas, famílias e comunidades inteiras.
Perante este cenário, na encíclica Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV alerta para o perigo de a humanidade, fascinada pelo avanço tecnológico e pelo orgulho individualista, tentar «erguer uma nova torre de Babel». Contra o isolamento gerado por essa autossuficiência técnica, o Sumo Pontífice exorta a «construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos». O progresso humano só é autêntico se estiver subordinado à comunhão e ao bem comum.
Não se pode, por isso, viver uma fé indiferente ou mercantilizada. Curar os enfermos e expulsar os demónios, na atualidade, significa levar a luz da esperança aos ambientes quotidianos, combatendo a cultura da indiferença com as armas da caridade e da presença concreta.