Solenidade da Santíssima Trindade
Reflexão inspirada na hermenêutica do Biblista burquinabe Jean Emmanuel Konvolbo
No domingo após o Pentecostes, a Igreja celebra a solenidade da Santíssima Trindade, coração da sua fé num só Deus em três Pessoas. Longe de ser uma especulação abstrata, a imagem de Deus é constitutiva de toda a espiritualidade e de toda a vida social. Com efeito, cada religião ou visão do mundo distingue-se fundamentalmente pela imagem que faz de Deus. Quem acredita num Deus legislador e juiz aprende a classificar os seres humanos em «bons» e «maus», destinados respetivamente à recompensa ou ao castigo. Quem acredita num Deus dominador é tentado a dominar os outros. Ora, os cristãos acreditam num Deus que é Amor (1 Jo 4,8), um só Deus em três Pessoas – Pai, Filho e Espírito Santo – que recebem a mesma adoração e a mesma glória, vivendo na unidade sem confusão e na distinção sem separação. Esta visão trinitária inspira tanto a vida individual como a vida comunitária.
Para o presente ano litúrgico, a Igreja propõe como Evangelho desta solenidade a célebre passagem de João 3,16-18; no versículo 16 o texto vem expresso nos seguintes moldes: « Porque Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo aquele que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna»; o 17 continua: « Pois Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele»; o 18 expressa-se: « Quem acredita n’Ele não é condenado; mas quem não acredita já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus».
A hermenêutica bíblica ensina que a profundidade do texto sagrado não depende da sua extensão; por isso, apesar da sua brevidade, este texto lança uma luz decisiva sobre a fé cristã: Deus é amor. Ama o mundo – isto é, a humanidade – com um amor de entrega absoluta (agapao), chegando ao ponto de dar o seu Filho Unigénito, sem nada esperar em troca, e isto apesar do mal infligido ao seu Filho, apesar da morte que Lhe foi dada. É, aliás, notável que o texto utilize aqui o verbo agapao (amor de entrega absoluta) e não phileo (amor de afeição ou de amizade). Enquanto o nível da afeição humana (phileo) implica frequentemente uma expectativa de reciprocidade, uma ressonância afetiva ou alguma forma de retorno, o amor divino manifesta uma gratuidade total. Esta escolha vocabular sublinha que o amor do Pai não depende da qualidade da resposta humana; é puramente iniciador e oblativo. Se Deus tem um Filho, então Ele é Pai, e a relação de amor que O une ao seu Filho é a terceira Pessoa da Santíssima Trindade: o Espírito Santo. Contudo, para compreender melhor estes três versículos, é necessário recolocá-los no seu contexto imediato.
Olhando para o contexto de redacção de Jo 3, 16-18
Este texto insere-se no diálogo entre Jesus e Nicodemos (Jo 3,1-21), onde Jesus fala claramente do Espírito (vv. 5.8), terceira Pessoa trinitária. Nicodemos, cujo nome grego significa «vencedor do povo», é um notável judeu, membro do Sinédrio, e fala na primeira pessoa do plural («nós»), sinal de que representa o grupo dos fariseus e, mais amplamente, o povo de Israel. Ele vai ter com Jesus de noite.
Esta visita noturna é frequentemente interpretada como um sinal de medo – interpretação reforçada pelo caso de José de Arimateia, discípulo «oculto por medo dos judeus» (Jo 19,38). Contudo, é possível uma outra leitura, teologicamente mais rica. Enquanto «mestre em Israel» (Jo 3,10), Nicodemos tinha o hábito de estudar a Lei durante a noite, como sugerem os Salmos (Sl 1,2; 119,55). A sua iniciativa pode, portanto, ser entendida como uma procura de aprofundamento da Lei divina, uma busca de luz espiritual junto de Jesus, a quem chama «Rabi» (Jo 1,38). Esta interpretação harmoniza-se melhor com o conteúdo do diálogo.
Esta procura da verdade enraíza-se profundamente nas tradições farisaicas da época. O estudo noturno da Torá correspondia a uma prática espiritual de grande importância, frequentemente associada aos círculos de estudantes e sábios (os Chabouroth). Longe de ser uma simples discrição motivada pelo medo, a noite torna-se para Nicodemos o tempo da concentração suprema, o momento teológico por excelência em que o sábio se confronta com o Mistério para nele procurar a clareza. Ao vir de noite, Nicodemos aproxima-se de Jesus não como um fugitivo, mas como um autêntico buscador de Deus, disposto a submeter o seu saber à luz do Rabi.
Ora, este diálogo revela uma diferença radical entre a visão de Deus na Antiga Aliança e aquela que Jesus vem revelar, e que a Igreja recebe como definitiva:
- A unicidade de Deus: Enquanto o Antigo Testamento proclama: «Escuta, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor» (Dt 6,4), Jesus revela que este Deus único tem um Filho, Ele próprio Deus, objeto da fé: «para que todo aquele que acredita n’Ele tenha a vida eterna» (Jo 3,16).
- A universalidade do amor: A Antiga Aliança tendia a restringir o amor de Deus a Israel (cf. Dt 7,7-8). Jesus abre este amor a toda a humanidade: «Deus amou tanto o mundo» (Jo 3,16) – não o cosmos, mas toda a humanidade. Certamente, a Antiga Aliança não está privada de amor nem de universalidade, mas é no Novo Testamento que estas dimensões alcançam a sua plena revelação.
- A cruz, de maldição a fonte de vida: Segundo a Lei, «todo aquele que for suspenso no madeiro é maldito por Deus» (Dt 21,23). Ora, Jesus elevado na cruz transforma este sinal de maldição em fonte de vida e de bênção, à semelhança da serpente de bronze (Nm 21,9; Jo 3,14).
- O poder da fraqueza: O Êxodo celebra a libertação «com mão forte e braço estendido» (Dt 26,8). Jesus, porém, salva pelo amor na aparente fraqueza da cruz (Jo 3,16).
- A fé em vez das obras: A Lei prometia a vida a quem a observasse (Lv 18,5). Jesus declara que a vida eterna vem da fé, isto é, do acolhimento da sua pessoa.
- O não-julgamento de Deus: Israel esperava um Messias que separasse o trigo do joio (Mt 3,12). Ora, Jesus revela: «Deus não enviou o seu Filho ao mundo para julgar (krino: separar, condenar) o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele» (Jo 3,17). O Filho não julga nem condena. São os próprios seres humanos que se julgam a si mesmos, acolhendo a luz ou permanecendo nas trevas (Jo 3,19-21).
De um Deus de amor captativo para um Deus de amor oblativo
Assim, João 3,16-18 opera uma verdadeira revolução copernicana na visão de Deus. Habitualmente, amamos porque o outro nos proporciona bem-estar: o nosso amor é captativo. No culto judaico, os sacrifícios de animais ou dos frutos da terra podiam dar a impressão de que é o homem quem dá a Deus e Deus quem recebe. Jesus inverte esta lógica: «Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito» (Jo 3,16). Foi Deus quem nos amou primeiro (1 Jo 4,19). Deus não ama porque Lhe trazemos algum benefício; ama por pura vontade de se dar. Para com o ser humano, Deus manifesta um amor oblativo, não captativo. Nicodemos, Israel e toda a humanidade são assim convidados a uma profunda conversão: na relação com Deus, o homem nunca é o doador, mas sempre o beneficiário. O verdadeiro défice do homem não é não ter dado o suficiente a Deus, mas não ter acolhido suficientemente o dom de Deus.
Da vida eterna futura à vida eterna já presente
Os versículos 15 e 16 deste Evangelho concluem: «para que todo aquele que acredita tenha a vida eterna». Muitos concebem a vida eterna como uma qualidade de vida superior que começa apenas após a morte. Jesus afirma, pelo contrário, tanto aqui como noutros lugares (Jo 3,36; 5,24; 6,40.47.54), que ela já é concomitante à vida biológica, embora perdure para além dela. Nicodemos, Israel e toda a humanidade, que acreditavam que a ressurreição só aconteceria «no fim dos tempos» (Jo 11,24), são convidados a aceder a ela desde já pela fé em Jesus, o Filho Unigénito enviado ao mundo: «A todos os que O receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus» (Jo 1,12). Esta é a vida eterna: conhecer Deus e Aquele que Ele enviou, Jesus Cristo (Jo 17,3).
Aplicação à vida cristã: crer na Trindade ou crer como a Trindade?
A fé num Deus que é Amor trinitário – Pai, Filho e Espírito Santo – não é uma verdade reservada ao catecismo ou à liturgia. Ela destina-se a moldar concretamente a vida individual e comunitária do cristão. Se esta fé não tiver qualquer impacto nestas duas dimensões, é porque o cristão acredita teoricamente na Trindade sem que essa crença se torne uma realidade existencial. São Tiago afirma-o com vigor: «A fé sem obras está morta» (Tg 2,26). Aplicado à Trindade, isto significa que uma fé trinitária que não produz relações trinitárias é uma fé inconsistente.
- Impacto na vida individual: tornar-se filho no Filho
Crer no Deus trinitário é, antes de mais, acolher o facto de sermos amados não porque o merecemos, mas porque Deus Se dá gratuitamente. Esta certeza transforma profundamente a identidade pessoal:
- A autoestima libertada da lógica do desempenho: Se Deus me ama com um amor oblativo, sem nada esperar em troca, então já não preciso de «merecer» o seu amor através das minhas obras. Posso abandonar a exaustiva corrida à perfeição e à comparação. A oração, os sacramentos e as obras de caridade tornam-se então uma resposta alegre a um amor recebido, e não uma tentativa de o conquistar.
- O abandono confiante na provação: Uma vez que Deus entregou o seu Filho mesmo «apesar do mal infligido ao seu Filho», isso significa que Deus não Se afasta perante o sofrimento. A fé trinitária ensina o cristão a não interpretar as provações como sinal de abandono divino. À semelhança de Jesus no Getsémani, o cristão pode viver a noite – como Nicodemos – não como uma fuga receosa, mas como um lugar de procura da luz.
- A vida eterna desde agora: Crer que a vida eterna começa hoje (Jo 3,16) transforma o olhar sobre cada instante. O cristão já não é simplesmente um «candidato ao Céu», mas um «filho no Filho» (Jo 1,12) que vive já da própria vida de Deus. Cada ação quotidiana – trabalhar, amar, perdoar, sofrer – é habitada pelo Espírito Santo, vínculo de amor entre o Pai e o Filho.
Sinais de uma disfunção individual: quando a fé trinitária permanece teórica
Se um cristão acredita na Trindade, mas vive numa ansiedade permanente, no medo de não ser suficientemente bom, na tentação de se justificar constantemente, isso significa que, na realidade, continua a acreditar num Deus juiz e contabilista, e não num Deus Pai oblativo. Se a sua oração consiste essencialmente em «negociar» com Deus ou em lamentar-se das suas provações, é porque ainda não integrou que o amor de Deus nunca se retira. Um cristão que vive a sua fé como um fardo e não como uma libertação, que não experimenta qualquer alegria interior, sofre provavelmente de um desfasamento entre a sua crença teórica (um Deus trinitário) e a sua fé prática (um Deus legislador ou dominador).
- Impacto na vida comunitária: viver como ícone da Trindade
A comunidade cristã – casal, família, paróquia, movimentos, comunidade religiosa, presbitério – é chamada a ser o ícone vivo da Trindade. Na Trindade, as três Pessoas vivem «na unidade sem confusão e na distinção sem separação». Aplicado à vida comunitária, isto traduz-se em:
- Unidade sem uniformidade: A Trindade não é uma massa indiferenciada. O Pai, o Filho e o Espírito Santo são distintos. Do mesmo modo, a comunidade cristã não deve apagar as diferenças de carismas, funções ou sensibilidades. A unidade constrói-se na complementaridade e não na eliminação das pessoas.
- A autoridade como serviço e não como dominação: Uma vez que o Filho é igual ao Pai e recebe a mesma glória, embora seja «enviado» pelo Pai (Jo 3,17), a autoridade na Igreja e nas famílias não pode ser um poder dominador. Deve ser um serviço que eleva o outro. Um pai de família, um pároco ou um superior religioso que exerçam a autoridade dominando, como fazem os chefes das nações (cf. Mc 10,42-45), contradizem a fé trinitária. Talvez acreditem num Deus dominador, mas não na Trindade.
- O outro não é um concorrente, mas um dom: Na Trindade, cada Pessoa não existe para Si mesma, mas para o outro. O Pai gera o Filho, o Filho volta-Se para o Pai, e o Espírito procede de ambos. Na comunidade cristã, o outro não é nem rival nem instrumento, mas um dom. O «nós» de Nicodemos (Jo 3,2), que é um «nós» de poder, deve transformar-se num «nós» de comunhão.
- O não-julgamento como prática comunitária: Uma vez que Deus não enviou o seu Filho para julgar o mundo (Jo 3,17), a comunidade cristã não é uma comunidade de juízes. Não classifica os seus membros em «bons» e «maus». É antes um lugar onde se acolhe a luz ou se permanece nas trevas – mas este julgamento é interior, não exteriorizado. A prática concreta é, portanto, a misericórdia, a recusa da maledicência e a reconciliação. Num casal ou numa comunidade, recusar perdoar é colocar-se como juiz do outro, precisamente aquilo que Jesus afirma não fazer (Jo 3,17). Perdoar é imitar a Trindade.
É evidente que estas disfunções não desaparecem de um dia para o outro. Contudo, a sua presença persistente, sem combate nem arrependimento, indica que a imagem de Deus ainda não foi verdadeiramente convertida pelo Evangelho.
Crer na Trindade é aprender a amar como a Trindade: gratuitamente, com alegria e sem julgar.
Sinais de uma disfunção comunitária: quando a comunidade não reflete a Trindade
Uma comunidade cristã (família, movimento, congregação, paróquia, diocese) onde predominam as lutas de poder, os grupos fechados, as exclusões e os julgamentos definitivos sobre os outros deixou de testemunhar a Trindade. Quando os responsáveis exercem a autoridade como dominação, quando as diferenças são vistas como ameaças, quando a misericórdia está ausente, pode suspeitar-se que essa comunidade acredita num Deus trinitário apenas em palavras, mas funciona segundo a imagem de um Deus dominador ou de um Deus juiz.
Do mesmo modo, uma comunidade que não acolhe os pecadores, os frágeis e os «diferentes» contradiz Jo 3,17: Deus não envia o seu Filho para julgar, mas para salvar. Uma tal comunidade está mais próxima do fariseu Nicodemos (antes da sua conversão) do que de Jesus.
Conclusão da aplicação: da crença à conformação
A solenidade da Santíssima Trindade não é um convite para contemplar Deus de longe, mas para entrar no dinamismo do seu amor. A autêntica fé trinitária reconhece-se pelos seus frutos: um cristão que ama gratuitamente sem esperar nada em troca, que perdoa sem condições, que vive a alegria mesmo no meio da provação, que constrói comunidades onde não se julga, mas onde se acolhe a luz.
Pelo contrário, a ansiedade, a dominação, o julgamento dos outros, a tristeza sombria e o fechamento comunitário são sinais de que o cristão continua a acreditar num outro deus diferente daquele que foi revelado por Jesus a Nicodemos.
A questão colocada a cada batizado é, portanto, esta: crês na Trindade ou crês como a Trindade? Porque apenas a segunda opção é a fé que salva e transforma o mundo.
Crer na Trindade não é apenas acreditar em Deus; é aprender a amar como Deus: gratuitamente, com alegria e sem julgar.