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Eu sou a porta

4º Domingo da Páscoa – Ano A

O 4º Domingo da Páscoa é considerado o “Domingo do Bom Pastor”, pois todos os anos a liturgia propõe, neste domingo, um trecho do capítulo 10 do Evangelho segundo S. João, no qual Jesus é apresentado como “Bom Pastor”, uma imagem que evoca proximidade, ternura e confiança. É o domingo que as comunidades cristãs dedicam à oração pelas vocações, para que o Senhor continue a enviar mais operários para a sua messe, pois ‘a messe é grande, mas os operários são poucos como o disse o Senhor mesmo da messe (Mt 9, 35-38).

O Evangelho apresenta Cristo como “o Pastor modelo” e a porta que dá acesso às ovelhas. Como Pastor Bom  ele cuida das ovelhas de Deus com dedicação  e amor, liberta-as do domínio da escravidão e leva-as ao encontro das pastagens verdejantes onde há vida em plenitude. Como Porta, ele tem uma dupla função: impede que os ladrões e salteadores tenham acesso às ovelhas e torna-se a referência para as ovelhas que entram e que saem.

 

A imagem da porta, deixa claro que a atuação de Jesus em relação ao rebanho de Deus estará em absoluto contraste com a dos dirigentes judaicos. Uma vez que estes abeiram-se das ovelhas como “ladrões e salteadores (Jo 10,1). Não estão preocupados com o bem das ovelhas; apenas pretendem explorá-las, enganá-las, utilizá-las de acordo com os seus interesses pessoais. Mantêm o povo prisioneiro, mergulhado numa escuridão sem saída e sem objetivos. Escravizam o “rebanho” e impedem-no de ter acesso a uma vida livre e digna. Infelizmente este não foi só o problema dos dirigentes judeus, este cenário perdura até hoje. Em contrapartida Jesus, o Bom e Verdadeiro Pastor, está interessado no bem das ovelhas. Enquanto os dirigentes do seu tempo eram movidos pelo egoísmo, O que o move é o amor. Ele entra no redil das ovelhas para cuidar delas, não para as explorar e roubar. A sua missão é libertá-las das trevas em que os dirigentes políticos e religiosos as trazem imersas e conduzi-las ao encontro da luz libertadora (cf. Jo 10,2). Esta deveria ser a preocupação dos lideres de hoje.

Como é que Jesus concretizará a sua missão de “pastor”? Em primeiro lugar, irá chamar as “ovelhas”. Chamá-las-á “pelo seu nome”, porque conhece cada uma e com cada uma quer ter uma relação pessoal de amor, de proximidade, de comunhão. Infelizmente este tipo de líder começa a escassear nos dias que correm. Alguns líderes em vez de inspirarem confiança, metem medo.

A porta dá acesso ao espaço onde estão as ovelhas. Quem quiser ter acesso ao rebanho, tem de passar pela porta. Nessa sentido, a imagem indica que ninguém pode ir ao encontro das ovelhas se não tiver um mandato do próprio Jesus. Indica também que ninguém pode ir ao encontro das “ovelhas” se não tiver os mesmos sentimentos, a mesma atitude, a mesma preocupação de Jesus: cuidar das ovelhas, proporcionar-lhes vida em abundância.
Mas a porta também dá passagem às próprias ovelhas. Permite-lhes sair e entrar. Permite-lhes aceder às pastagens onde há alimentos e água em abundância; mas permite-lhes também regressar ao espaço protegido onde encontram abrigo e segurança contra a noite, contra os animais selvagens e contra os ladrões e salteadores. Toda a vida das “ovelhas” passa por Jesus. Para as suas “ovelhas”, Jesus é a referência fundamental. É de Jesus que as “ovelhas” partem e é para Jesus que as “ovelhas” voltam.

Na primeira leitura a pregação de Pedro toca o coração dos seus ouvintes. Dão-se conta que estão numa estrada errada, barraram-se a porta. E procuram saber se não há solução.

A resposta dos habitantes de Jerusalém, representantes da “casa de Israel”, à interpelação de Pedro, “que havemos de fazer, irmãos?” (At 2,37b), é a resposta humilde e sentida de quem reconhece a verdade das acusações que lhe são imputadas, admite os seus erros e se mostra disposto a reorientar a vida, a “voltar” para Deus, a escutar Deus outra vez, a voltar a trilhar os caminhos propostos por Deus. Às vezes falta esse tipo de atitude da parte do rebanho. Atualmente alguns membros das nossas comunidades querem ditar normas, não estão dispostos a reconhecer os seus  erros nem ouvir o que vem dos seus líderes. E a complicar mais as coisas é o conceito distorcido de sinodalidade, que é entendido por alguns como nivelamento ou mesmo confrontação.

Reconhecendo a sinceridade e a honestidade daqueles que o interpelam, Pedro aponta-lhes o caminho: é necessário converter-se, ser batizado e receber o Espírito Santo (cf. At 2,38).
A conversão implica a mudança radical da mente, dos comportamentos, dos valores, de forma a que o coração do crente se volte de novo para Deus e passe a viver segundo Deus. Este deve ser também o caminho de todos nós quando nos apercebermos, a partir da Sagrada Escritura ou  Documento normativo da Igreja, que falhamos a estrada, a estrada que tomamos ainda que larga e confortável não dará à porta por onde temos de entrar.