5° DOMINGO DA QUARESMA – ANO A
Ez 37, 12-14; Rm 8, 8-11; Jo 11, 1-45
Depois de nos apresentar a água e a luz, a liturgia deste Quinto Domingo da Quaresma celebra outro dom batismal, a Vida, isto é, celebra Jesus Vida que, diante da gruta onde Lázaro fora sepultado há quatro dias, clama em alta voz: “Lázaro, sai para fora!”
Caríssimos, sobre Lázaro, o pouco que sabemos que nome vem do hebraico ‘El’azar, significando “Deus que ajuda”, portanto, aquele que é ajudado, auxiliado ou assistido por Deus. Todavia, o que nos importa salientar é que a sua casa é hospitaleira, é o irmão amado de Marta e Maria, um amigo especial de Jesus. Pois, o seu nome é hóspede, irmão, juntamente com apelido dado pelas suas irmãs: “amigo de Jesus”, aquele a quem Deus ama — em suma, o nome de cada um de nós.
E, por causa de Lázaro, chegaram até nós duas das palavras mais importantes do Evangelho: “Eu sou a ressurreição e a vida”. Jesus não diz “Eu era…” ou “Eu serei…” em remoto último dia. Não! Ele usa o presente: “Eu sou…” Ele é ressurreição e vida aqui e agora (hic et nunc). Ele é a ressurreição de vidas, Ele é o despertar do humano que ainda se pode enxergar nos homens, o renascimento da vida que deixou de ser vivida.
Então, n’Ele, viver tornar-se-ia a possibilidade de muitas ressurreições, a possibilidade de emergir das nossas grutas escuras, sair do medo, do desespero, do pecado, da solidão, permitindo que tudo que nos aprisiona seja afrouxado. Em suma, a ressurreição é também algo concreto: a possibilidade de ressurgir de vidas apagadas e sem sonhos que jazem nos túmulos deste mundo efémero.
“Vou abrir os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar” (Ez 37,12). Interessante! Já a partir do Livro de profeta Ezequiel, Deus dá-nos a entender que Ele não ama os nossos túmulos e quer conduzir-nos para fora deles. E sabe que permanecer ali significa morte, um caos generalizado, destruição, porque tudo pára, torna-se obsoleto e apodrece.
E mais ainda, Lázaro, sendo rodeado de pessoas que o amam até verter às lágrimas — como Jesus, que o amou até se comover profundamente e chorar pela sua morte — representa a humanidade amada por Deus. Eis que Deus não aceita ser privado dos seus prediletos; Ele não quer isso: com efeito, “a sua glória é o homem plenamente vivo” (cf. Santo Ireneu); n’Ele, o amor vence a morte; e Lázaro renasce para uma vida nova.
São Paulo diria a Lázaro: “o Espírito de Deus, que ressuscitará Jesus de entre os mortos, habita em ti”. Por isso, são estas as palavras de liberdade e de libertação: “tirai a pedra… sai para fora… desligai-o e deixai-o ir”. O homem emerge, envolto em ligaduras como um recém-nascido, como alguém que nasceu de novo. Morrerá uma segunda vez, é certo, mas agora abre-se uma esperança sublime diante dele: agora está ciente que as portas da morte se abrem para a vida.
Então, ó homem, sai da caverna dos arrependimentos e das deceções, liberta-te de olhar apenas para ti, de te sentires sempre no centro do mundo e retraído em ti mesmo. Não é o teu covil lugar onde estás seguro: não te isolas; saia do seu túmulo e vá ao encontro dos outros. Lá fora encontrará ar, sol e alegria. Portanto, três imperativos contam a história da ressurreição: sai, liberta-te e vai!
Quantas vezes morremos, desistimos, sentindo como se o óleo da lâmpada da fé tivesse acabado e, por isso, o desejo de amar e de viver se tivesse esgotado?! Lembremo-nos, o nosso Deus é um Deus que ama os seus amigos e nunca os abandonará à morte: “Ninguém tem amor maior do que este: dar a vida pelos seus amigos” (Jo 15,13). Dar a vida e dar vida. Jesus vence a morte porque Ele é amor.
Pois é, caríssimos, para nós que conhecemos a frágil precariedade da existência, Jesus se apresenta hoje como Aquele que possui e dá a vida. Porque, ao trazer o seu amigo Lázaro de volta à vida, Ele prefigura e antecipa a sua iminente paixão, morte e ressurreição, e revela a vida plena e feliz que o Pai prepara para nós.