(leia: Isaías 17,3-7; Romanos 5,1-2.5-8; João 4,5-42)
À beira dum poço, em pleno meio dia, pela terra quente da Samaria, brota um diálogo. Um diálogo fresco, borbulhante de vida, entre Jesus e uma mulher. A sede é o pretexto. O primeiro a chegar ao poço é o Mestre de Nazaré. Está cansado duma longa viagem que, da Judeia, o leva à Galileia. Cansado e sedento. Normalmente, os judeus, quando iam da Judeia para a Galileia, seguiam uma estrada mais longa, próxima ao mar, para evitar contaminar-se passando pelo território ‘impuro’ da Samaria. Mas Jesus «tinha que atravessar a Samaria». «Tinha que» ir ao encontro de alguém com uma sede mais profunda: uma samaritana. Que chega ao poço com seu cântaro vazio, símbolo do vazio da sua vida. E o Mestre lhe pede: «dá-me de beber!» É a primeira gota dum curso de água que irá crescendo…
A mulher não tem nome. É apenas «uma samaritana». Jesus é um judeu. Judeus e samaritanos eram irmãos separados pela história. Séculos antes, os israelitas tinham-se dividido em dois reinos: do Norte (ou Israel), com capital em Samaria, e do Sul (ou Judá), com capital em Jerusalém. O Reino do Norte, entretanto, foi invadido pelos assírios, povos pagãos, que recolonizaram o território. Assim, os ‘samaritanos’ tornaram-se ‘mestiços’. De raça e religião. Da bíblia, seguiam apenas os cinco primeiros livros. O seu centro de culto era o monte Garizim, não o templo de Jerusalém. Hereges, portanto. Os judeus olhavam-nos com desconfiança e desprezo…
Não assim Jesus. Ele não exclui ninguém da experiência de Amor e Vida Plena que traz de Deus. Um rabí (mestre) judeu não podia falar publicamente com uma mulher. Menos ainda com uma samaritana! O Mestre rompe esse tabu social e religioso: conversa com a samaritana; vai depois hospedar-se na sua aldeia. Mas voltemos ao poço. O diálogo entre Jesus e a mulher progride em forma de zig-zag, entre metáforas e mal-entendidos. O caudal vai engrossando, transforma-se em corrente de água viva! Com o diálogo que cresce, cresce a fé da samaritana. Inicialmente, Jesus é apenas «um judeu», que não pode ser maior que o patriarca Jacob; depois, ela vê nele «um profeta»; mais adiante, «o Messias». E anuncia-o aos seus conterrâneos. Estes, após um encontro olhos-nos-olhos com Jesus, dirão que ele é «o Salvador do mundo»!…
Se o pré-texto era a sede, o texto, o diálogo, é um caudal de água. Primeiro, o Mestre pede à mulher água para matar a sua sede. Depois, leva-a a descobrir uma sede mais profunda: a sede duma vida com sentido. Aos poucos, a mulher descobre em si o desejo de outra ‘Água’: a que mata a sede de vida plena, autêntica. Água cristalina, que brota do coração de Deus. E que Ele dá —gratuitamente— a cada ser humano. Agora é a mulher quem pede: «dá-me dessa água!». E descobre que Jesus é a Água mais pura que jamais provou. Mais ainda. O Mestre faz-lhe descobrir que nela mesma existe uma Fonte, apenas adormecida, esperando uma ocasião para jorrar — e irrigar a vida dela e a de outros. «A água que Eu lhe der há de tornar-se nele(a) em fonte de água que dá a vida eterna», que faz amadurecer a vida, a torna gostosa, plena.
A samaritana compreende tudo. Vai a correr para a aldeia e anuncia à sua gente a alegria que lhe transborda do peito. A sua vida renasceu! Para trás, ficou o seu cântaro vazio: a vida passada: vazia, confusa, em busca de significado. O Encontro com o Mestre encheu de sentido o poço do seu coração. A água já está jorrando nela, jorrando dela…
Na bíblia, a relação entre Deus e o seu povo é muitas vezes falada em termos de relação entre esposo e esposa. E, junto dos poços, encontram-se muitos casais que se enamoram. Cada um de nós é a «samaritana», a ‘esposa’ que às vezes perde o rumo da vida. Com ‘cinco maridos’, amores desacertados, ídolos cheios de promessas, mas incapazes de encher o poço do coração. Em Jesus, Deus faz uma longa viagem para vir ao encontro da sua ‘esposa’ (o seu povo, cada um de nós). Ele «tem que atravessar» os caminhos áridos da nossa vida para chegar ao nosso coração. E oferecer. Não águas ilusórias, que matam sedes provisórias — e nos deixam sempre vazios, sedentos, desiludidos… Ele se oferece! Oferece o Dom de si mesmo, Vida Plena (‘eterna’)! A «água viva» é a energia única do Amor de Deus, Espírito Santo borbulhando em nós. «Se conhecesses o dom que Deus tem para dar…… tu é que lhe pedirias, e Ele te daria água viva!».
Deus tem sede de mim, de ti. Tem sede da nossa sede. Ele vem ao nosso encontro em horas e lugares imprevistos. A qualquer hora. Em qualquer lugar. Junto ao poço da vida. Aproxima-se com respeito. Como com a samaritana. Não julga. Apenas nos desafia a olharmos de frente a nossa realidade. Sem máscaras, sem desculpas. Sem medo de mudar (sim, a mudança dá-nos medo, tira-nos as seguranças!). Se aceitamos o desafio, abrimo-nos ao seu Dom. E descobrimos: dentro de nós, há um Poço de Luz, uma fresca Fonte de Beleza, de Bem. Capaz de irrigar o nosso viver e de dar sabor ao viver de outros…
Sim, «a Esperança não engana, pois o Amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rm 5,5: da 2ª leitura).