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A Mística do Desperdício: Sal, Luz e Identidade Cristã

Domingo V do Tempo Comum (A)

Leituras do dia: Is 58,7-10; Salmo 111 (112); 1 Cor 2, 1-5; Mt 5, 13-16

O tema central deste domingo gravita em torno da «luz», uma presença que atravessa, como um fio condutor, quase todas as leituras.

No Evangelho, extraído do discurso programático de Jesus – o célebre Sermão da Montanha – Ele recorre a duas imagens fulgurantes para definir a identidade dos Seus discípulos: «Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo».

É fascinante notar que Jesus não diz «tornai-vos», mas afirma «sois». Esta identidade não é uma meta longínqua, mas uma realidade presente, fruto da participação direta na novidade que Ele trouxe à história. Cristo é a Verdadeira Luz que ilumina todo o homem (Jo 1, 9), e, como nos recorda o prólogo de São João, «a todos quantos O receberam […] deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus» (Jo 1, 12). Quantos de nós temos plena consciência deste “poder” que nos foi outorgado?

Através destas metáforas, Jesus exorta-nos a não negligenciarmos quem somos nem o dom que d’Ele recebemos. O sal e a luz são, por natureza, símbolos de entrega absoluta e de dom de si. Para cumprir a sua função e conferir sabor, o sal tem de se dissolver; para projetar claridade, a vela precisa de se consumir.

Este “desfazer-se” não é um conceito abstrato, mas concretiza-se em gestos quotidianos, discretos e repletos de amor e compaixão: ao repartir o pão com quem tem fome, ao acolher o desalojado ou ao vestir quem padece de frio. Em suma, como sublinha a primeira leitura, trata-se de reconhecer e dignificar a presença do outro.

Esta é a essência da pregação que São Paulo reitera na segunda leitura: um anúncio que não se alicerça na «linguagem convincente da sabedoria humana», mas na verdade do gesto. É o oposto da caridade de fachada, daqueles que sentem necessidade de convocar a imprensa por cada gesto de auxílio, transformando a partilha de um bem essencial num espetáculo de vaidade.