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Uma vida vazia de sentido

XXVIº DOMINGO DO TEMPO COMUM

Am 6, 1,4-7   1Tm 6, 11-16  Lc 16, 19 -31

Prezados irmãos e Irmãs, paz e bem em Jesus Cristo, rico de Compaixão.

Hoje celebramos o XXVIº Domingo do Tempo Comum-C. No Domingo passado reflectimos sobre a necessidade de se distanciar da ganância do dinheiro.

A liturgia da Palavra deste Domingo convidara-nos a meditar sobre o perigo da indiferença ou insensibilidade do coração humano que resulta da riqueza mal direcionada. Para melhor conduzir a nossa reflexão de hoje, vamos intitular a nossa partilha: «Uma vida vazia de sentido». Este tema percorre os textos da Liturgia da palavra hodierna, sobretudo na Primeira Leitura e no Evangelho: «Deitados em leitos de marfim, comem os melhores cordeiros do rebanho, estendidos indolentemente nos seus divãs, bebem vinho por grandes copos, perfumam-se de óleos preciosos, sem se compadecerem da ruína de José» (Am 6, 4-6); «Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino e fazia todos os dias esplêndidos banquetes. Um pobre. chamado Lázaro, jazia no seu portão, coberto de chagas […]» (Lc 16, 19-20). A nossa partilha vai centrar-se em duas ideias fundamentais: a compaixão de Deus (vida plena) e a insensibilidade do homem (vida vazia).

A compaixão de Deus: para se compreender o que é uma vida vazia de sentido, é necessário falarmos de uma vida plena de sentido, daí, a compaixão de Deus, sinónimo de vida plena. A Sagrada Escritura é rica de passagens que indicam o que é uma vida plena. Uma vida plena é aquela que se compadece, é a vida partilhada com os outros, uma vida sensível, uma vida que se deixa interpelar ou tocar pela vida penosa dos outros e faz algo de concreto para a transformar. Assim, age Deus: «eu bem vi a opressão do meu povo no Egipto, e ouvi o seu clamor diante dos seus inspectores; conhece os seus sofrimentos. Desci a fim de o libertar da mão dos egípcios […](Ex 3, 7-8); «Quando deres um banquete,  convida os pobres, os alejados, os coxos e os cegos» (Lc 14, 13); «Contemplando a multidão, encheu-se de compaixão por ela, pois estava cansada e abatida, como ovelhas sem pastor» (Mt 9, 36); «Jesus sendo rico, se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza» (2Cor 8,9). É esta a vida de Deus, a vida de Jesus Cristo; uma vida doada, vida solidária, vida sensível, uma vida rica de compaixão, uma vida que se compadece, uma vida que penetra a vida dos outros para dar-lhes a vida. É esta vida a que todos somos chamados, ser como Deus, como seu Filho Jesus Cristo, ser compassivo, ser sensível, misericordiosos como o Pai (Lc 6, 36). Assim, é a vida plena, uma vida cheia de sentido, para si e para os outros, uma vida que faz a vida sua e a do outro acontecer.

A Insensibilidade do homem:  meus irmãos e minhas irmãs, a indiferença, a insensibilidade do homem rico do Evangelho constrói uma vida vazia de sentido, uma vida insignificante. Olhando para esta afirmação, talvez alguém se pergunte: onde está o mal de um rico organizar banquetes com o seu próprio dinheiro, com os seus familiares e amigos? O problema não consiste no facto de ser rico, mas como orienta a sua riqueza:  o homem rico vestia-se de púrpura e linho fino e fazia todos os dias esplêndidos banquetes. Um pobre, Lázaro, coberto de chagas jazia no seu portão, mas ele não se importou por ele; fechou-se no seu egoísmo, afastou-se dos outros. Ignorou a existência de alguém que tem a mesma dignidade que ele. Foi tão insensível que um cão lhe deu uma grande lição de solidariedade, aproximando-se do pobre, lambendo as suas feridas.  Na nossa cultura, o cão lambe a ferida não para saciar a fome, mas para curá-la. Desde pequenos fomos ensinados a colocar a ferida à disposição do cão para a lamber e curar.  O pecado do rico consiste na indiferença absoluta, tornando-se um homem já morto, mesmo vivendo, pois quem não ama já está morto (1Jo 3, 14).

Amados irmãos, o que aconteceu naquele tempo, também acontece nos nossos dias, na nossa vida pessoal, familiar e sociopolítica. Quantos pobres batem a nossa porta? Como os tratamos? Não os tratamos com indiferença? E até, como dizia o Papa Francisco, sentimos receio de os abraçar e tocar, para não correr o risco de sermos pobres como eles. Na nossa família, muitos de nós por serem ricos afastaram da família, mesmo tendo pais e irmãos passando mal. Não os querem socorrer e morrem por falta de apoio. O mais triste é que alguns ricos acusam os pais de feiticeiros para não gastar o seu dinheiro por eles. Os ricos que se deitavam em leitos de marfim, comiam os melhores cordeiros do rebanho, se estendiam indolentemente nos seus divãs, bebiam vinho por grandes copos, que se perfumam de óleos preciosos, sem se compadecerem da ruína de José, estão entre nós, nos nossos países e nas nossas sociedades. O rico que se banqueteava com os seus cinco irmãos, ignorando a presença de Lázaro, está entre nós, no nosso país, na nossa sociedade. Existem na nossa sociedade, ricos que dormem sobre dólares e esbanjam todo o dinheiro do país com os seus cinco irmãos, deixando insensivelmente os outros sem nada, sem se compadecerem a ruina do povo; o mais deplorável é que o povo pobre come no lixo. Desde pequeno nos ensinaram que só o porco come na lixeira, mas hoje, na nossa sociedade, as pessoas são porcos e os porcos são pessoas, porque ambos têm a mesma dignidade e o mesmo destino!

Caríssimos irmãos, não imitemos o rico insensível, indiferente, egoísta que construiu uma vida vazia de sentido.  Por causa do dinheiro ele perdeu até o nome, a sua identidade. A riqueza muitas vezes se torna uma nova identidade, domina a sua consciência, dita as leis e inspira os seus pensamentos. As pessoas já não querem ser chamadas pelo nome. Tem de ser chamadas de  boss, gerente, PCA. Fujamos da riqueza que paralisa a alma, mata o amor e a fraternidade. Não deixemos que o nosso coração se transforme em gelo. Sejamos como nos ensina São Paulo: «mas tu homem de Deus foge destas coisas, procura antes de tudo a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança, a mansidão (1Tm 6, 11). Mudemos de atitude agora, peçamos a conversão do nosso coração. Não esperemos, como o rico, pedir que os mortos venham nos alertar sobre o perigo das riquezas mal orientadas.  Será tarde demais e neste caso, nós e os nossos cinco irmãos sucumbiremos. Nós temos também Moisés e os profetas, isto é, a Palavra de Deus. Não precisamos de milagres extraordinários.  Não é um morto ressuscitado, mas sim a Palavra de Deus que ressoa nosso coração que nos pode levar a abrir os nossos olhos. A Palavra é o verdadeiro milagre que pode provocar a nossa ressurreição. Nós somos bem-aventurados porque não tendo visto Jesus a sair do sepulcro, escutando a Palavra de Deus, saímos do nosso sepulcro e partimos para a descoberta dos irmãos (Alessandro Pronzato).  Escutemos a Palavra de Deus e deixemo-nos guiar por Ela para que o amor reine entre nós e a fraternidade desabroche. Se não for assim, o nosso lugar será no inferno, onde há tormentos.

Que Maria Santíssima, nossa Boa Mãe, que ensinou o Seu Filho Jesus Cristo a cultivar um coração compassivo e sensível ao sofrimento dos outros mais necessitados, nos ensine a cultivar uma vida plena, marcada pela compaixão, pelo amor e pela sensibilidade ao sofrimento dos outros como a de Seu Filho Jesus Cristo. Amem.