COMENTÁRIO DA LITURGIA DO XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM
«Senhor, que fizestes consistir a plenitude da lei no vosso amor e no amor do próximo, dai-nos a graça de cumprirmos este duplo mandamento para alcançarmos a vida eterna (…)».
Certamente nos recordamos do episódio evangélico do doutor da lei que interrogando Jesus dise: «Mestre, qual é o maior mandamento da lei?». Jesus respondeu: «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento. Este é o primeiro mandamento. E o segundo é semelhante ao primeiro: amarás o teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas» (Mt 22,35-40). A resposta de Jesus que se refere ao mandamento de Deus (Cf. Dt. 6,5; Lv 19,18), se constitui na base da primeira parte da colecta deste Domingo: “dai-nos a graça de cumprirmos este duplo mandamento”.
Olhando para o contexto deste Domingo e da Semana Litúrgica que hoje inauguramos, o texto eucológico exige uma reflexão particular em torno da expressão “lei” que para além do aspecto normativo, pode indicar o comportamento interior e exterior que Deus exige na relação do homem com Ele, com o próximo, com as criaturas e consigo mesmo, para poder viver à altura daqueles que foram chamados à adopção filial.
Ao longo dos tempos o conteúdo da lei se foi delineando de forma progressiva e no contexto da aliança oferecida por Deus primeiramente à Abraão, e depois renovada e manifesta em Moisés e que encontrou o seu pleno cumprimento em Jesus Cristo; Este (homem-Deus), com o seu sacrifício pascal conferiu à humanidade a verdadeira liberdade pela qual somos chamados a fazer coincidir as nossas decisões com a vontade de Deus, O qual, sendo nosso Pai, não pode ter outra vontade a nosso respeito a não o ser o bem.
Na vida do cristão a regra de ouro é sempre a caridade que se manifesta num amor capaz de privilegiar permanentemente Deus na vida pessoal, amor esse que é sempre inseparável da necessidade do cultivo do amor pelo próximo. O critério de avaliação da autenticidade do amor para com Deus é o amor pelo próximo. Sem o segundo grau da hierarquia do amor, o amor à Deus corre o risco de se transformar em sentimentalismo, abstração, fuga da responsabilidade pelo outro e, em última análise, não colaboração com Deus que se manifesta, do ponto de vista histórico, no próximo; Esse próximo torna-se preocupação da profecia de Amós que acusa os opressores dos pobres como os ricos e os comerciantes, que aumentando os preços dos produtos, procuram extorquir os pobres, chegando mesmo ao ponto de escravizá-los. No mundo actual há sinais concretos de manipulação económica em desfavor dos mais simples como os “trabalhadores mal remunerados”, “os trabalhadores infantis”, os “kamanguistas” nas zonas de exploração mineira, os pobres das regiões de maior produção industrial, os países subdesenvolvidos taxados grandemente pelas organizações credoras internacionais, os refugiados das novas guerras da humanidade, etc.
Sobre as situações de injustiças, também o Evangelho de Lucas, 16,1-13 faz referência: a compra e venda do pobre por um par de sandálias não terminou; somente assumiu novas formas, modos mais sofisticados e subtis, muitas vezes justificados com motivações “científicas”, forjadas, muitas vezes em boa fé, mas sempre projectados pelos poderosos, capazes de manipular todo o cenário em benefício próprio. Infelizmente nas nossas comunidades, algumas vezes, tem-se a sensação de se ter medo de abordar esses temas por os considerar mundanos, mas a verdade é que negando esses temas se está a adiar o alcance da plenitude da dignidade humana e negando-a vem também negado o valor espiritual do homem e das relações inter-humanas que o cristianismo precisa anunciar e testemunhar.
Em suma, a liturgia de hoje nos apela, mais uma vez, a tomarmos consciência de que «Nunca será justo dizer: Ou Deus, ou o homem», dizia S. Paulo VI, pois, o amor à Deus implica necessariamente o amor ao próximo; há o dever de amar, em concomitância Deus e o homem, sabendo que o tributo que o homem deve oferecer à Deus nunca será comparável àquele que o mesmo deverá oferecer ao seu próximo. E a forma mais concreta e sublime de que dispomos para exprimirmos essa vocação ontológica de amar a Deus é, sem dúvidas, a oração; Por isso mesmo 1 Tm 2,1-8 convida todos a uma oração sincera por todos os homens e mulheres para que a vontade do Senhor, que é a salvação de todos, se cumpra num ambiente de justiça. É isso que justifica a oração colecta da XXV Semana do Tempo comum que hoje inauguramos:
«Senhor, que fizestes consistir a plenitude da lei no vosso amor e no amor do próximo, dai-nos a graça de cumprirmos este duplo mandamento para alcançarmos a vida eterna (…)».