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Somos ricos aos olhos de Deus, quando nos tornamos pobres em espírito

DOMINGO XVIII DO TEMPO COMUM

Irmãos caríssimos, qual é a verdadeira riqueza? O que realmente pode satisfazer o coração humano? Qual é o sentido da vida do homem neste mundo?

Há algum tempo, passei por uma localidade que visitei em criança e me apercebi que a casa onde tinha ficado (que era um imenso casarão), não existia mais.

Então pus-me a reflectir: nas grandes casas e fazendas e outros bens que pessoas construíram em São Tomé e Príncipe, alguns a custa de suor de morte dos irmãos e, no final tiveram de abandonar tudo. E são outros que se beneficiam e pior ainda, muitos desses bens foram consumidos pelo tempo, como seus proprietários.

Tudo é vaidade: Vaidade das Vaidades, diz Coelet. (1ª Leit.)

Entre as vaidades, a liturgia destaca-nos nesta semana a Avareza: o desejo de acumular bens terrenos exacerbadamente, descurando o próximo e muitas vezes prejudicando, intencionalmente, o outro.

Porquê tanto mal nesse mundo? A Terra possui recurso suficiente para alimentar todos os seus filhos. E a nossa África, irmãos? Vejam meus irmãos angolanos, porque tanto sofrimento?

E o nosso STP, tão poucos e tão próximos fisicamente, porquê os filhos desta Terra se consomem, com tanta ferocidade? Que aproveita ao homem tantas dores, trabalhos e preocupações?

A mensagem da Liturgia para esta semana é clara: se quisermos merecer a graça de Deus temos de nos afastar da ganância, porque a vida humana não depende dos seus bens (Lc 12,15)

Então simplesmente, «confia no Senhor e pratica o bem, possuirás a terras e serás feliz» (Sal.37,3), pois àquele que o ama e busca de coração sincero o Senhor o dará até durante o sono.

A Igreja convida-nos a olhar pelo olhar de Cristo, e também aquele da primeira leitura, que a avareza é uma forma de idolatria e nos afasta de Deus e dos irmãos, pois «Encoberta a verdade do nosso coração com a vaidade. A vaidade nunca cura! A vaidade nunca cura. Além disso, é venenosa, continua arrastando a doença do coração, trazendo aquela dureza de coração que te diz: ‘Não, não vá ao Senhor, não vá.’» Papa Francisco[1].

A vaidade (avareza) torna-nos duros de coração para ajudar aqueles que precisam, contrariamente, como ainda nos diz o Papa Francisco: o convite a pobreza de espírito «é o caminho: não é o caminho da pobreza pela pobreza. Não! É o caminho da pobreza como instrumento, para que Deus seja Deus, para que Ele seja o único Senhor! Não o ídolo de ouro! E todos os bens que temos, o Senhor nos dá para fazer o mundo ir adiante, ir adiante a humanidade, para ajudar, para ajudar os outros». Ela faz-nos, também, ficar duros na relação com Deus: «O apego a prazeres, vaidades e desejos carnais nos torna insensíveis à vinda de Cristo. A amizade com o mundo é inimizade com Deus» diz Papa Leão XIV.

Perante isto, voltamos as nossas leituras para dizer que tanto a primeira como a segunda vê na avareza e qualquer vaidade um caminho errado para um crente. Mas a grande diferença é que enquanto Coelet se limita (próprio de visão pré Revelação) a ver a miséria, a dor e o afadigar sem solução, Cristo revela a Misericórdia e o Amor de Deus, mostrando o caminho da Esperança.

Ou seja, mesmo perante a carestia e a amargura do mundo, ou na possessão dos bens terrenos, força aparente da segurança, do controlo da própria vida, da relativa independência dos outros, da realização de desejos ou projectos, de uma existência, comparativamente, mais justa, da presunção de uma bênção de Deus, por merecimento, o Senhor Jesus lembra que se deve ter em consideração o último critério, que julgará as nossas vidas.

Como cristãos, filhos da Revelação, devemos nos lembrar sempre de que a riqueza deve ser um meio de acção, de se comprometer com os outros. De ajudar aqueles que estão desesperados e compartilhando com generosidade, porque quem se faz pobre em espírito, torna-se rico aos olhos de Deus.

Os cristãos são, igualmente, filhos da Ressurreição, diz São Paulo, na segunda Leitura deste domingo, (cfr. Cor, 3,1s). Assim sendo, como os Apóstolos, no seguimento de Cristo, devemos aspirar somente «as coisas do alto», mortificando-nos, porque quem é digno do Senhor é «aquele que toma a sua cruz, todos os dias» e o segue fazendo «morrer o que … é terreno: imoralidade, impureza, paixões, maus desejos e avareza, que é uma idolatria. Não mintais uns aos outros, vós que vos despojastes do homem velho», mas vivei como uma nova criação, vivendo todos da mesma vida, a vida de Cristo que a todos torna participantes do mesmo Corpo de Cristo.

Santo Agostinho no sermão 107, nº7, sobre a avareza em Lucas, diz que devemos dizer a alma que ela seja boa, e não que tenha muitos bens, que “ela despreze esse tipo de bens e seja, ela mesma, boa, para que se apresente com segurança, quando for exigida”[2], pois constitui impiedade querer ter muitos bens e não ser bom. Assim como desejamos ter coisas (muitas) boas devemos ser ou ter uma alma boa.

Que hoje a Palavra do Senhor permaneça em nossos corações: ‘Prestai atenção e guardai-vos de toda cobiça, pois embora alguém possa estar em abundância, sua vida não depende do que possui’[3].

Seja louvado o nosso Senhor Jesus Cristo.

[1] https://pt.aleteia.org/2020/03/10/papa-francisco-a-vaidade-e-venenosa/

[2] SANTO AGOSTINH0, Sermão 107 (Avareza), in chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://centroculturalcampogrande.pt/sermoes.agostinho/pdf/107.pdf

[3] PAPA FRANCISCO, in https://www.vaticannews.va/pt/palavra-do-dia/2022/07/31.html