Dt 30,10-14; Col 1, 15-20; Lc 10, 25-37
Escutando este palavras de Jesus, me vem esta pergunta: o doutor da lei intencionava mesmo experimentar Mestre ao perguntar “que hei-de fazer para receber como herança a vida eterna?”? É uma questão difícil e, talvez, poucos são aqueles que a colocam a si mesmos. Pois, contentando-se somente com esta vida terrena, não ousam aspirar a vida eterna que se fundamenta no grande mandamento, qual distinção do homem como filho de Deus: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com toda a tua mente; e ao seu próximo como a ti mesmo”. A partir deste grande mandamento, se pode entender que, em Jesus, o amor não conhece parcialidade, mas sim exige a totalidade. Daí a questão que nos interessa: “E quem é o meu próximo?”
Caros irmãos e irmãs, estamos diante duma pergunta que atormentou o doutor da lei, e hoje, sejamos sinceros, também nos atormenta. Pois, pela forma como estão as coisas, o homem, atualmente, tornou-se lobo do próprio homem – “homo hominis lupus”, como dizia Thomas Hobbes (1588-1679); o outro tornou-se uma pedra de tropeço para a existência do seu semelhante neste mundo, onde reina o medo, a desconfiança e a indiferença … Somos tão parecidos, mas tão diferentes uns dos outros, por classe social, a religião, raça, nacionalidade, partido político, a ponto de nos perdermos no individualismo. Sendo assim, vem a pergunta: Quem pode ser o meu próximo, quem eu devo amar como a mim mesmo? E até que ponto devo amá-lo?
Jesus, para esclarecer quem é o próximo para aquele doutor e também para nós, narra a parábola do bom Samaritano. Esta parábola retrata os homens de todos os tempos e a sua forma de se relacionarem uns com os outros. A parábola menciona que “um homem” – como se estivesse a referir todos os homens, sem distinção –, descia de Jerusalém para Jericó. Ele se depara com salteadores que, depois de o terem despojado e espancado, vão se embora, deixando-o meio morto na estrada. Pela indiferença dos dois primeiros viandantes, podemos dizer que o homem meio morto não lhes interessava e estava como que condenado à morte. Que grande mal é a indiferença! E infelizmente é o mal mais propagado e mais generalizado.
Por fim, Jesus nos descreve a imagem do bom samaritano, uma pessoa em quem o semimorto encontra o seu próximo: “ao vê-lo, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas deitando azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele”. Todos eles verbos de movimento com carga infinita de amor: exalam humanidade e coerência. De facto, “misericórdia eu quero e não sacrifícios” (Mt 9,13), diz o Senhor. A piedade vale mais do que as regras litúrgicas ou doutrinais. Pois é, a este propósito, Bento XVI, de feliz memória, escrevia: “o samaritano não se pergunta até onde vão os seus deveres de solidariedade, nem sequer que méritos são necessários para a vida eterna. Algo mais acontece: o seu coração se espedaçou … ’teve compaixão’” (Jesus de Nazaré, 2007, 234).
Caríssimos, indo além, identifico o samaritano como aqueles “homens de boa vontade, em cujos corações a graça opera ocultamente” (Gaudium et Spes, 22), pois, ele ajuda não aqueles que o merecem ou alguém do seu próprio clã, mas todos os que encontra no caminho da vida. Pois, com gestos concretos, ele, criticado e desprezado pelos judeus, levantou do pó aquele que estava semimorto, que era de algum modo seu inimigo.
Em outras palavras, podemos dizer que Jesus com o termo “próximo”, não quero indicar a dimensão temporal ou cronológica da palavra em causa, isto é, aquele que vem depois, mas sim a dimensão espacial ou topológica, ou seja, aquele que está perto, ao meu lado, abrangendo desde o nosso familiar, o nosso amigo, até aquele que nos é hostil ou inimigo, portanto, todo e qualquer homem ou mulher. O próximo, por isso, deve ser amado em todas as suas dimensões.
Daí que o amor de Deus derramado nos nossos corações não deve ter limites, antes pelo contrário, deve-se estender a todos, sem qualquer distinção. Se tivermos fé, como a tiveram e têm muitos santos da caridade, o próximo vem concebido como todos aqueles que estão pertos de nós e necessitam realmente de nós. Ademais, se pararmos para pensar, urge sublinhar que todos absolutamente precisamos uns dos outros.
Como cristãos crentes e credíveis, somos chamados a enxergar em cada homem e mulher, começando pelos pobres e os que sofrem, Jesus que está à espera de ser amado. Portanto, fechar os olhos ao próximo é como fechá-los a Deus. Devemos ser capazes de dizer ao Senhor: “Ó Deus, mostra-me a beleza do teu rosto e permite-me descobri-la no rosto do meu próximo”.
Infelizmente, hoje, o mundo continua cheio de salteadores: na economia, na política, no sistema judicial e na mentalidade despreocupada que, em nome do sucesso, do prazer e do dinheiro, não hesita em abandonar inúmeras pessoas semimortas nas ruas. Por isso, a palavra “próximo” ainda não foi redescoberta na sua necessária relação com o amor universal, tanto mais que ainda não compreendemos o valor da dignidade do outro como nosso semelhante, independentemente da sua filiação étnica, política e religiosa. Na origem dos conflitos, mesmo à escala global, está o desconhecimento dos direitos humanos e a subestimação do respeito devido ao outro e às suas necessidades. Acima de tudo, urge evitar todas as formas de discriminação, garantir que a violência não seja engendrada pelo ódio inato contra os povos, grupos, culturas e crenças religiosas, e redescobrir a valorização das diferenças culturais e religiosas, que são um enriquecimento partilhado e não uma barreira.
Que o Senhor Jesus, Bom Samaritano universal, faça com que, também nós, na nossa pequenez, saibamos parar e dar atenção a quem precisa, que nos ajude a não passar adiante, desviando a rota, mas pelo menos dar um sorriso sincero, um aperto de mão, àqueles que sofrem.