General, Joy of the Gospel

REALMENTE PREPARADOS? 23º Domingo Comum-Ano C-2022

João Pedro Fernandes, CSsR

REALMENTE PREPARADOS?

(leia: Sabedoria 9,13-18; Filémon 1,9-10.12-17; Lucas 14,25-33)

Jesus prossegue, «de modo decidido» (Lc 9,51) o caminho para
Jerusalém, juntamente com seus discípulos. Na cidade santa,
«que mata os profetas», o Mestre consumará a sua missão.
A um certo ponto do caminho, dá-se conta que o segue uma
grande multidão. Na Palestina, aquele era um tempo difícil
para a maioria da gente: vivia-se sob a dura dominação
dos romanos, os impostos eram pesados, os governantes corruptos,
os líderes religiosos rígidos… Tempos de crise como esse favorecem
o surgir de profetas, pregadores, visionários, revolucionários…
prometendo mudanças radicais, caminhos novos, milagres fáceis.
E atraindo multidões.

Não estranha que muita gente siga o Mestre de Nazaré.
Suas palavras e gestos são cheios de compaixão e esperança.
Mas ele não anda em busca de adeptos, aplausos, holofotes,
multidões. A sua é uma outra via. Sabe que em Jerusalém
enfrentará a rejeição feroz dos poderosos. Se alguém o quer
seguir, deve estar pronto a correr riscos. Decididamente, Jesus
não é um bom ‘mobilizador de massas’… Em vez de prometer
facilidades, milagres baratos…, o Mestre desafia! Para que
voemos alto! Coloca-nos condições exigentes para o seguir.

Primeira condição: «Se alguém vem a mim e não me ama mais
que ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, (…) e até à própria vida,
não pode ser meu discípulo». Jesus joga tudo sobre o amor.
Se o encontramos de verdade, todos os nossos afectos ficam
redimensionados. Não deixamos de amar aqueles que nos são
caros. Mas abrimo-nos a um Amor Maior, que nos faz capazes
de «amar mais». Amando Jesus e como Jesus, podemos entender
a verdadeira dimensão do amor: a que amplia o coração, e nos
faz ir além do círculo restrito (às vezes cómodo, às vezes viciado)
da família e dos amigos próximos. Para amarmos com a medida
de Deus: a todas as suas filhas e filhos!

Segunda condição: «Quem não toma a sua cruz para me seguir,
não pode ser meu discípulo». Não é um apelo a levar os pesos
e dores da vida com resignação. No contexto político da Palestina,
os ouvintes de Jesus sabiam que a cruz era o mais humilhante
e cruel castigo dos dominadores romanos: nela acabavam
criminosos, revolucionários e todos os que ameaçavam a ordem
estabelecida! O Mestre adverte-nos: para segui-lo é preciso
estar preparado para ser mal entendido, rejeitado, crucificado.

Ser cristão não é apenas seguir umas ‘práticas religiosas’, dizer
umas quantas orações. Seguir Jesus é igual a «tomar a cruz»:
ser coerente com o estilo de vida que ele viveu e anunciou,
questionando tradições, injustiças, discriminações, exclusões.
E aceitar o risco da rejeição ou marginalização por parte
daqueles que não vêm o mundo e a vida segundo a lógica
do Mestre de Nazaré. (E, por vezes, eles estão entre os nossos
familiares!…) «Tomar a cruz» é correr o risco de ser incómodo,
uma ‘pedra no sapato’ de quem vive cómodo na sua
auto-suficiência. «Tomar a cruz» é treinar-se a «amar mais»
quem é «amado menos»: os ‘últimos’ da sociedade.

Terceira condição: «Quem não renuncia aos seus haveres,
não pode ser meu discípulo». O ser humano não aceita a sua
vulnerabilidade. Então, enche-se de bens, haveres, títulos
de importância, que aparentemente lhe dão segurança. E
começa a acumular para si, pensando que quanto mais tem,
mais vive. Começa a pôr a confiança da sua vida nos bens,
não em Deus. Fecha-se no seu pequeno círculo familiar e de amigos;
tornando-se incapaz de alargar o coração, de ser dom gratuito.

Jesus, o homem mais livre que já passou por esta terra,
liberta-nos da necessidade de ‘ter’ coisas para ‘ser’. Ele
nos acolhe e nos ama como somos. E nos chama a ser livres
de nós mesmos, colocando a nossa confiança em Deus,
sendo capazes de amar e servir como ele amou e serviu.
É isso que nos faz seus discípulos.

Estou pronto a seguir o Mestre? Não. ‘Apronto-me’ cada dia.
Escutando o vibrar do seu coração a cada nova aurora: para
me deixar ser «mais amado(a)» por ele; aprendendo com ele
a «amar mais». Tomando a cruz de ser pai ou mãe, marido
ou esposa, cidadão ou governante, pastor ou fiel… uma cruz
feita de responsabilidade, espírito de serviço, honestidade,
generosidade, sonho de fraternidade. ‘Apronto-me’ a cada
amanhecer, revestindo-me de humildade para aprender,
em cada jornada, a sabedoria do Evangelho…

Filémon, um nobre senhor, aprendeu a ser discípulo do único
verdadeiro Senhor, Jesus (que a todos faz livres), quando
foi convidado pelo apóstolo Paulo a acolher o seu antigo escravo,
Onésimo, não mais como ‘servo’, mas como ‘irmão’. (Não deixe
de ler a emocionante breve carta de Paulo a Filémon, segunda
leitura deste domingo!)

«Senhor, quem pode conhecer a tua vontade, se não lhe
deres sabedoria, e não enviares o teu santo Espírito lá do Céu?
Assim se endireitam as veredas dos que vivem na terra,
os homens aprendem o que é do teu agrado e pela sabedoria
se salvam» (Sab 9,17-18: primeira leitura de hoje).