Partilha da Palavra de Deus do V Domingo da Páscoa/ANO A
I Leitura: At 6,1-7
A primeira leitura deste domingo é um texto que nos é familiar e conhecido como “a instituição dos sete diáconos”, não tanto porque ele faça explicitamente referência a este importante ministério da Igreja, mas pelo facto de nele predominar a palavra “serviço/servir” que em grego se diz diakonia (6,1.2.3). De facto, o motivo de murmurações entre helenistas e hebreus, é mesmo o serviço diário que ao longo do texto ficou claro tratar-se do serviço das mesas (v. 3), particularmente à assistência às viúvas. A comunidade cristã nascente, portanto, herda um conflito latente dentro do hebraismo, entre judeus que tinham vivido fora da Palestina onde assimilaram a cultuta grega, chamados aqui “helenistas” e os judeus tidos como autoctones de língua aramaica, aqui designados “hebreus”.
Na solução do problema, podemos notar a primazia que os Doze dão ao serviço da palavra (2x no trecho) e à oração, tanto que este serviço não pode ficar condicionado pelo serviço às mesas que, em todo o caso, merece muita atenção aos Doze a ponto de escolher um grupo de 7 homens de boa reputação para se dedicarem a esse serviço.
Uma lição fica patente para o cristão e sobretudo para comunidades cristãs do nosso tempo: se bem que seja inevitável o surgimento de problemas, pequenos ou grandes, apesar da presença do Espírito, esses problemas devem ser resolvidos envolvendo as diversas tendências, e não excluindo algum irmão, iluminados pela palavra de Deus e pela oração.
Esta leitura indica-nos, através de um sumário numérico, tanto no ínicio (At 6,1) como no fim (6,7) que o número de discípulos aumentava/se multiplicava, precisamente para sublinhar que a Igreja não é obra humana, mas sim projecto do próprio Deus, o qual assiste-a, pelo seu Espírito e faz com que ela resista às inclemências da história; à comunidade se lhe pede a docilidade ao Espirito de Deus.
II leitura: 1Pd 2,4-9
O trecho que serve de II leitura neste Domingo é comumente considerado uma catequese dirigida aos neófitos, com vigoroso apelo a que mantenham a sua identidade com Cristo, como tesstemunha a passagem: “desejai, como crianças recém-nascidas, o leite não adulterado da palavra, a fim de que por ele cresçais para a salvação, já que provastes que o Senhor é bondoso” (1Pd 2,2-3).
De seguida, com várias citações do Antigo Testamento, Cristo é considerado com a pedra rejeitada pelos homens, que veio a tornar-se pedra angular (cfr. Is 28,16; Sl 118,22), pedra esta que tem função ambivalente: quem nela crê não será confundido, mas para os que não crêem “é uma pedra de tropeço, uma rocha que faz cair” (v. 8). Como consequência desta concepção, numa imagem cara à eclesiologia de comunhão, o cristão é convidado a fazer parte deste edifício no qual Cristo é pedra angular: “também vós como pedras vivas, constitui-vos em edifício espiritual, dedicai-vos a um sacerdócio santo” (v. 5). Numa passgem posterior, o autor falará da comunidade dos fiéis como “raça eleita, sacerdócio real, uma nação santa, povo de sua particular propriedade” (1Pd 2,9).
Evangelho: Jo 14,1-12
A passagem do Evangelho que lemos e meditamos no V Domingo da Páscoa está inserida nos chamados “Discursos de adeus” do Senhor Jesus, pronunciados na “Última Ceia” (Jo 13-17). Trata-se, portanto, do momento crucial e dramático da vida do Mestre pois nele, ele passa aos discípulos, o seu precioso testamento, isto é, dá instruções mais imporatantes aos discípulos sobre como se comportar depois da sua morte, como era habitual naquela época e naquele contexto. De facto, a passagem inicia com o lava-pés (Jo 13,1-20) e se encerra com a oração mais longa de Jesus feita antes da sua Paixão, conhecida como “oração sacerdotal” (Jo 17).
Nesta leitura, continua presente a preocupação pela união dos discípulos com o seu mestre mesmo depois da sua iminente glorificação pela Paixão, morte e ressurreição.
Duma visão de conjunto da liturgia da palavra, percebemos que a mensagem deste Domingo sublinha a necessidade da união com Cristo para que realmente uma comunidade seja cristã, precisa da luz da palavra de Deus e do Espírito para fazer face aos inevitáveis problemas ou dificuldades que vão surgindo com o crescimento da comunidade pois, como diz o próprio Jesus: “sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15,5).