A página do Evangelho que é objeto de meditação é tematicamente dividido em duas partes: enquanto a primeira parte Jesus indica um conjunto de condições que são necessárias para O seguir, na segunda, invés, Ele fala da necessidade de refletir antes de tomar uma decisão importante.
Jesus está percorrendo o caminho que leva da Galileia a Jerusalém. Está rodeado pelos seus discípulos que O seguem. “Se alguém vem ter comigo, sem Me preferir ao pai… até à própria vida, não pode ser meu discípulo”. Trata-se de “preferir”, isto é, “amar mais do que”. Na lógica do texto, Jesus não afirma “não amar a família” ou “amar menos”, nem mesmo “odiar”, como diz o Evangelho de Mateus. Mas o texto afirma “sem me preferir”, isto é, se alguém não me “ama mais”. Não nos está a pedir para amar menos quem faz parte da nossa vida, mas para amar mais, alargando o nosso olhar e o nosso coração até nos sentirmos parte de toda a humanidade; descobrir Deus como nosso Pai e a humanidade inteira como nossa família. Assim, não se trata mais de ódio, mas de um “amar mais”, de um grau diferente de afeto. Jesus pede-nos para acolher o amor divino que é perfeito e puríssimo.
Então, este amor divino colocará em nosso coração afetos novos pelo pai, pela mãe, pela esposa, pelos filhos. Este é um aspeto importante para a nossa vida: devemos sempre aspirar a este amor fortíssimo, total, muito exigente. Devemos acolher em nossa vida Deus como Deus, acolher Jesus como Filho de Deus, que tem o direito de ser amado com toda a nossa pessoa, com toda a nossa força e com toda a nossa capacidade de afeto. Se acolhermos Jesus desta forma e carregarmos a nossa cruz – porque um amor tão radical se manifesta na renúncia à busca dos próprios interesses e da própria satisfação, para tentar apenas acolher o Amor -, então Deus nos tornará participantes do seu amor por todas as pessoas. Deus, de fato, ama nosso pai, nossa mãe, nossos irmãos e nossas irmãs… Se estamos unidos a ele no amor, então com ele estaremos cheios de amor pelos outros: um amor purificado, desinteressado, generoso.
Na segunda parte do Evangelho, Jesus fala da necessidade de refletir antes de tomar uma decisão importante, e dá dois exemplos. O primeiro exemplo é o de um homem que quer construir uma torre: antes deve sentar-se a calcular o custo, se tem os meios para a concluir; caso contrário, corre o risco de ser ridicularizado se começar a construir a torre, mas depois não a conseguir terminar. O segundo exemplo é o de um rei que parte para a guerra contra outro rei, seu inimigo: ele também deve refletir bem antes de se lançar numa empresa desse tipo; caso contrário, se pensar que não será capaz, deve enviar ao outro rei uma embaixada para a paz. Jesus nos diz que quem quiser segui-lo deve refletir bem, deve entender qual é a condição para ser seu discípulo.
Qual é esta condição? O que deve ser dado para ser discípulos de Jesus? É necessário dar uma parte dos próprios bens? Uma grande parte deles? A exigência de Jesus é muito mais radical: “Assim, quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo”. Uma vez mais, Jesus aqui se mostra muito exigente: requer uma renúncia total, uma renúncia a todos os próprios bens; caso contrário, não se pode ser seus discípulos. Isto não significa que, para ser discípulo de Jesus, todo cristão deve vender tudo o que tem e dá-lo aos pobres; mas significa que todo cristão tem o dever de se distanciar profundamente de toda a cobiça, de todo o apego às riquezas materiais, aos bens de qualquer género.
O cristão deve aceitar que o seu coração não esteja ocupado por estas coisas. Deve realmente colocar Jesus no centro do seu coração. Deve dar-lhe todo o lugar. Deve estar sempre desejoso de fazer a vontade de Jesus, que é uma vontade de amor. Caso contrário, se o seu coração estiver dividido, ele não pode ser verdadeiramente discípulo de Jesus. Devemos pedir ao Senhor a força para avançar nesta direção, para não aceitar a divisão do nosso coração. Este deve ser oferecido completamente a Jesus, para que possamos estar unidos a ele de maneira autêntica. Então seremos seus discípulos, e receberemos dele toda a força do seu amor, que transformará a nossa vida, infundindo nela a paz e a alegria, e assim a verdadeira felicidade.