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Ide, pois, e fazei discípulos de todas as nações

Na festa da Ascensão, há duas formulações do mandato missionário: a de sermos testemunhas da Palavra e a de sermos pregadores. Enquanto nos Atos dos Apóstolos Jesus afirma que “sereis minhas testemunhas”, por outro lado, no Evangelho de Mateus, Jesus envia os seus para irem e fazerem discípulos de todos os povos: “Ide e ensinai todas as nações ”.

Sereis minhas testemunhas

Esta passagem do livro dos Atos dos Apóstolos narra-nos a aparição e a ascensão de Jesus ressuscitado, ocorridas em Jerusalém, onde os discípulos aguardavam o Pentecostes. Entre o momento da aparição e o da ascensão, Jesus dá as últimas recomendações pós-páscais, especialmente a missão dos discípulos no mundo: “sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra”. O mandato missionário é muito claro: ser testemunhas de Jesus. Ele afirma: “sereis minhas testemunhas”. Desta frase pode-se deduzir que existe, portanto, um vínculo, uma relação profunda entre os apóstolos e Jesus: Jesus, o Senhor, constitui e declara que os apóstolos são Suas testemunhas e, como tal, devem falar Dele; por isso, são enviados como “testemunhas” por Ele. Os apóstolos são aqueles que tiveram um conhecimento direto de «tudo o que Jesus fez e ensinou desde o início até ao dia em que foi levado para o céu». Na sua vida, Jesus foi sinal da misericórdia e do amor de Deus Pai. Tudo o que Ele fez e ensinou era a boa nova da misericórdia. Os discípulos são enviados não só para serem testemunhas desta misericórdia vivida, ensinada e contada por Jesus, mas também da Sua morte e ressurreição salvíficas. Eles estão conscientes de que a paixão e a ressurreição de Cristo são a fonte da qual podemos beber a misericórdia do Pai.

O amor de Deus, capaz de transformar a nossa vida, faz florescer aquelas áreas de sofrimento que existem no nosso mundo: os pobres, os doentes, os marginalizados. Assim como Jesus, misericordioso, se aproximou e se mostrou solidário, também os discípulos, para serem testemunhas, devem estar ao serviço dos pobres e dos excluídos, vivendo a proximidade e a solidariedade com eles. Somos testemunhas quando fazemos nosso o estilo de vida de Jesus, quando todos os dias, no nosso ambiente familiar, de trabalho, de estudo e de lazer, nos aproximamos com espírito de acolhimento e partilha das pessoas que encontramos, tendo no coração o grande projeto do Pai: a fraternidade universal. De facto, Jesus disse “até aos confins da terra”, o que significa que o testemunho deve chegar aos confins da terra. Os apóstolos não devem ter medo, porque Jesus já lhes tinha dito: “recebereis a força do Espírito Santo que descerá sobre vós”. O Espírito Santo é o grande protagonista dos Atos dos Apóstolos e também o grande protagonista da vida de quem quer seguir Jesus.

Ir e fazer discípulos

Também o Evangelho fala da Ascensão, ou seja, do fim da vida terrena de Cristo e da sua ascensão à direita do Pai. No Evangelho de Mateus 28,16-20, os discípulos partiram para a Galileia, para um monte que Jesus lhes tinha indicado. Quando o viram, alguns discípulos adoraram-no e outros duvidaram. Neste encontro, o Senhor ressuscitado deixa-lhes o seu testamento, que é a missão definitiva para a Igreja, ou seja, continuar na história o que Ele fez: fazer discípulos de todos os povos, ensinando e batizando. Mas o Senhor deixa também uma promessa: estará sempre com os discípulos, “até ao fim dos tempos”. Neste trecho do Evangelho, devem ser considerados três elementos importantes: o local do encontro, o mandato missionário universal dos discípulos e a promessa de Jesus.

Em primeiro lugar, o texto leva-nos à Galileia, após a ressurreição de Jesus, precisamente no monte que Ele lhes tinha indicado. A Galileia é o lugar onde Jesus viveu e trabalhou. Foi ali que começou a anunciar o Evangelho do «Reino» e onde começou a reunir à sua volta um grupo de discípulos. Na Galileia, havia uma convivência entre povos pagãos e judeus. É o lugar da vida quotidiana de Jesus e dos seus discípulos e é lá que acontecerá o último encontro. O encontro com o Senhor acontece na vida quotidiana. Não façam coisas estranhas. O Senhor encontra-se na vida de todos os dias. Mas o evangelista diz que o encontro aconteceu num monte impossível de identificar geograficamente. Segundo a tradição bíblica, a «montanha» é sempre o lugar onde Deus se revela aos homens. É o lugar da revelação, do encontro com Deus, da contemplação e da escuta. Podemos encontrar Jesus na vida quotidiana, mas com a capacidade de contemplar e ouvir.

É neste monte que Jesus envia os seus discípulos. Jesus envia os seus discípulos em missão com esta ordem: «Ide e fazei discípulos de todas as nações». A missão que Jesus confia aos seus discípulos é uma missão «em caminho». Eles são enviados para se porem a caminho: «Ide», diz o Senhor. São chamados a deixar a Galileia para irem por todo o mundo, porque a missão que Jesus confia é uma missão universal: Jesus envia-os a todas as nações, sem obstáculos de fronteiras, sem distinção de raças e sem diversidade de culturas. As fronteiras, as raças e as culturas não podem ser obstáculos. A missão dos discípulos dirige-se a todas as nações.

Por fim, a missão consiste em «fazer discípulos». Trata-se de fazer discípulos das nações e não de lhes ensinar. Mateus evita o verbo ensinar, mas usa fazer discípulos. Diz que vós sois discípulos, portanto fazei outros como vós, discípulos e ouvintes da única Palavra. Ninguém é mestre! Fazei discípulos ensinando e batizando. Neste caminho de evangelização, Ele está connosco até ao fim dos tempos. Não abandona a sua Igreja no processo da sua missão evangelizadora.

O discípulo missionário é aquele que evangeliza com a sua própria vida, é um verdadeiro testemunho, é capaz de sair da sua zona de conforto e tem a coragem de chegar a todas as periferias que precisam da luz do Evangelho. Como bem salientou o Papa Leão XIV é aquele que é capaz de “sair em missão, enfrentar a crise na família e na sociedade, e levar o Evangelho a todos os lugares, agindo como “amigos de Jesus”.