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As condições para entrar no Reino

IV DOMINGO DO TEMPO COMUM

Sf 2, 3; 3, 12-13  1Cor 1, 26-30  Mt 5, 1-12

Benquistos irmãos e irmãs, paz e bem em Jesus Cristo, O Bem-aventurado. Hoje celebramos o IVº Domingo do Tempo Comum.  A liturgia da Palavra deste Domingo convida-nos a reflectir sobre o as Bem-aventuranças. Para melhor orientar a nossa reflexão, achamos por bem intitulá-la: «As condições para entrar no Reino». Estas condições consubstanciam-se na busca da humildade e da justiça. A ideia do tema percorre as leituras que acabamos de escutar: «Procurai a justiça, buscai a humildade: talvez assim, acheis abrigo no dia da ira do Senhor» (Sf 2, 3); «Felizes os pobres de Espírito, porque deles é o Reino do Céu; felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados» (Mt 5, 3.5). Os últimos versículos do capítulo IV de Mateus dizem que Jesus proclamava o Evangelho do reino e curava todas as enfermidades. A sua fama estendeu-se por toda a Síria e trouxeram-lhe todos o que sofriam qualquer mal; seguia-lhe uma grande multidão. Jesus vendo a multidão, subiu ao monte, sentou-se e começou a ensiná-los: à multidão Ele recorda no seu ensino: não basta seguir para receber a cura, é necessário aderir a Ele, decidir por Ele; aos discípulos lembra que, para alcançar o Reino do Céu, é necessários ser como Ele: humilde e promotor da justiça. Daí, que todos devem buscar a humildade e a justiça. Condição para entrar no Reino.

Meus irmãos e minhas irmãs, as bem-aventuranças são o caminho para alcançar o Reino do Céu, a vida eterna, a felicidade. As Bem-aventuranças são o caminho de Santidade. Jesus Cristo é o Santo de Deus (Mc 1, 24). Jesus Cristo é o Primeiro Bem-aventurado, proclamado pelo Pai: Tu és o meu Filho muito amado, em Ti pus todo o meu agrado (Lc 3; 22). O cristão é convidado a entrar no Reino do Céu, mas a condição é viver as bem-aventuranças, consubstanciadas na humildade e na justiça. A humildade é sinónimo de pobreza. Os pobres de espírito são humildes, pois sentem necessidade de Deus, reconhecem a sua dependência de Deus, não são orgulhosos, autorreferenciais e autossuficientes; eles sabem que a sua vida sem Deus não tem sentido, não se constrói, daí, a humildade de reconhecer-se incompletos. Pensemos no pequeno caminho espiritual de Santa Teresinha do Menino Jesus: ela confia e abandona totalmente a sua vida nas mãos de Deus, pois Ele é o seu tudo, preenche tudo na sua vida. Os mansos são humildes, a mansidão significa humildade, são pobres não têm poder. O seu poder está em Deus. Jesus é o manso, Ele diz: «Aprendei de mim que sou manso e humildade de coração» (Mt 11, 29). O manso defende a paz, a fraternidade e a esperança. O monge Luciano Manicardi diz que a mansidão é a arte de domar a sua própria força, demonstrando ser mais forte que a sua força. E, citando o Papa Paulo VI, salienta que a mansidão é alimentada pelo diálogo, pois o diálogo não é orgulhoso, não é pungente, não é ofensivo; é pacífico, evita modos violentos, é paciente e generoso (Cfr. Ecclesiam Suam, 47). O humilde é misericordioso, sente-se amado por Deus e retribui o amor ao próximo; é benevolente com o próximo como Deus é benevolente para consigo. Os misericordiosos são aqueles que «acreditam sempre, na humanidade e na dignidade da pessoa humana, mesmo quando o próprio homem, por sua culpa ou por desgraça, a perdeu. A misericórdia acredita obstinadamente na humanidade do culpado e restaura-a com o perdão. A misericórdia é amor incondicional, que a ama o que não é amável ou que se tornou desprezível; é memória e prática da dignidade humana do criminoso, do homem reduzido a nada; a misericórdia recusa-se a reduzir o homem às culpas, ainda que monstruosas, de que ele pode estar manchado» (Luciano Manicardi). Caríssimos irmão e irmãs, as primeiras Bem-aventuranças que agrupamos na humildade, querem nos ensinar que devemos ser e agir como Cristo. Será que somos e agimos como Cristo? Nós somos pobres em espírito? Quando faltamos à missa ao Domingo para ir jogar bola com os amigos, ir fazer negócios, realizar actos político-partidários estamos a ser pobres em espírito? Assim, sentimos e acreditamos realmente que a nossa vida sem Deus, não tem sentido? Nós somos mansos? Quando temos problemas em casa com a esposa, com os filhos, dialogamos? ou quando a esposa casada diz que ouvi dizer que estás a andar com outra mulher, tu sais de casa e dizes: agora é que nunca mais vais ver a minha cara? Você e os teus filhos, vão ver, meu dinheiro nunca mais verão? Assim, é ser manso? Te esqueceste que um dia vais voltar à tua casa, doente ou morto? Sabias que esta tua esposa, mansa e misericordiosa, depois de ficares como um caroço de manga chupado por uma criança, te acolherá no vosso quarto? Nós somos misericordiosos? Quando nos ofendemos ou desentendemos temos perdoado os outros? Ou ficamos com raiva, rancor, ódio, sede de vingança? Te perdoar, só na cova! Meus irmãos, convençamos-mos de uma coisa clara: quem não viver as bem-aventuranças não entrará no Reino do Céu.

A outra condição para entrar no Reino do Céu, é a busca da justiça: «Felizes os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados». Estes são aqueles que procuram, acima de tudo, o Reino de Deus e a sua justiça (Mt 6, 33). A justiça é a vontade de Deus expressa pelo Messias e que se realiza num correcto modo de agir.  Os que choram são humildes, são pessoas sem força, são fracos, humilhadas e oprimidas e recorrem sempre a Deus, clamando por justiça. Os que promovem a paz, constroem a vida humana em todas as suas dimensões; no seu agir revela-se uma especial intimidade com Deus, o Deus da paz e da justiça. Os puros de coração, estabelecem uma digna relação com Deus e com o próximo, procurando agradar a Deus e não aos homens. Aqui começa e termina tudo o que se refere à busca da justiça: quando alguém procura, acima de tudo, agradar a Deus e não aos homens, anunciando o Evangelho do bem e denunciando as injustiças, é perseguido até a morte e morte de cruz! Aqui encontramos o sentido profundo da última bem-aventurança: felizes sereis quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo disserem todo o género de calúnias contra vós, por minha causa. Esta é lógica dos ímpios: insultar, caluniar, espezinhar, ridicularizar, mentir, contra quem defende a justiça e condena a injustiça contra os fracos: ao político cristão que não alinha na corrupção, é atribuído o crime de peculato que nunca existiu; ao padre que denuncia as injustiças, defende o povo, é atribuído uma caterva de filhos e um bando de mulheres que nunca existiram, para que ninguém acredite mais nele; ao activista social e defensor dos fracos, pobres e oprimidos, é atribuído o crime de ter desviado os fundos destinados a projectos sociais a favor dos pobres que “supostamente” defende!; ao Catequista, construtor da paz e da reconciliação na aldeia, sem fazer distinção de cultura e de partido, é acusado de feiticeiro para que todos o abandonem e, na pior das sentenças, ser apedrejado até à morte. Esta é a logica dos ímpios: diabolizar o adversário para que se cale a sua voz! Ao nosso mestre, defensor da justiça, chamaram de belzebu, amigo do demónio! Meus irmãos, estas últimas bem-aventuranças, mostram a necessidade de construirmos um mundo melhor: mundo de paz, de amor, de justiça, de fraternidade, de alegria; um mundo onde cada homem e mulher se sinta respeitada e promovida a sua dignidade a fim de se realizar como pessoa plena, isto é, feliz. Nós lutamos para a realização deste mundo como nos pede o nosso mestre? Nós somos como o nosso mestre, o príncipe da paz e da justiça? No nosso dia a dia buscamos a justiça e fazemos justiça para com os que são injustiçados, ou somos forjadores de injustiça contra os nossos irmãos e irmãs? Como seremos construtores de justiça, se calunias o teu colega de serviço de algo que não fez, por inveja? Como seremos construtores de justiça e paz se acusamos os outros de feiticeiros para que sejam humilhados? Como seremos construtores de justiça se humilhamos e desumanizamos os nossos trabalhadores, porque sabes que não têm onde ir? Como seremos construtores de justiça, se nós, por causa da nossa ganância, deixamos as pessoas comerem nos contentores de lixo? Amados irmãos e irmãs, como diz Luciano Manicardi, cada bem-aventurança implica um juízo e um apelo à conversão em relação a quem não é misericordioso, nem manso, nem pobre de espirito, a quem persegue e calunia, a quem provoca aflições, semeia guerra e injustiça.  Imitemos nosso Senhor Jesus Cristo, imitemos Deus, como diz Ermes Ronchi: «Se Deus é pobre, isto é, mendigo de amor, se é rico que se faz pobre para nos fazer ricos, então, é lindo entrar nesta pobreza que enriquece; se Deus é manso, então, é lindo sermos meigos e ternos como Ele; se Deus possui um coração grande  cuja medida é perdoar sem medida, então, é lindo segui-lo para fazer com Ele o milagre da paz; assim, reacende em nós a saudade irresistível de um mundo feito de bondade, de não violência, de justiça, de paz; a saudade de um outro modo de ser homem. Que Maria Santíssima, nossa boa mãe nos ensine a ser como seu Filho Jesus Cristo: humilde e justo.