A década 70 conheceu várias mudanças na região da África Austral. Angola e Moçambique que estavam em guerrilha contra os seus governos coloniais Portugueses, alcançaram, finalmente a sua independência política, em 1975 depois de muita gente ter morrido e outra deslocada. Depois da independência destes dois países, as guerras civis, provocadas pelas facções rivais nacionalistas, UNITA e RENAMO respectivamente, continuaram a luta pela ascendência política. Assim se prolongou muito o sofrimento e a dispersão do povo pelos países vizinhos, como refugiados. Nesta altura, os nacionalistas Africanos do Zimbabwe, então Rodésia e África do Sul, intensificaram as suas lutas pela independência e pelo fim do apartheid. Isto agravou o problema dos refugiados, insegurança geral e o sofrimento de muitas pessoas da região.
Esta situação atraíu a atenção da Liderança da Igreja Católica da região, que descobriu que os países não podiam lidar, isoladamente, com estas crises sociais. Era necessária uma colaboração regional. Uma vez que estas crises tinham surgido de realidades sócio-políticas, os Bispos tinham que rever a Doutrina Social da Igreja e aplicá-la à situação corrente. Para este exercício, o instrumento importante era o desenvolvimento das Comunicações Sociais. O Secretariado Regional das Comunicações Sociais da África Austral, SARCOM, já tinha sido criado em 1973 e quando a IMBISA nasceu foi incorporado como um dos seus Departamentos.
Pode-se mesmo dizer que o clamor dos refugiados, a necessidade de uma verdadeira integração da Doutrina Social da Igreja nas maiores correntes do ministério da Igreja e a importância das comunicações sociais nesta linha, constituiram a primeira preocupação pela criação da IMBISA.
É com este pano de fundo que aquando do Sínodo Universal dos Bispos, realizado em 1974, em Roma, os Bispos da África Austral decidiram reunir-se, de maneira informal, para discutirem assuntos de interesse comum da sua região. Alí, houve uma necessidade de se “informarem, mutuamente, sobre a situação dos seus países” (Origens e Desenvolvimento da IMBISA). Este encontro de Roma foi o primeiro dos encontros que se seguiram e que levaram ao estabelecimento da IMBISA. Os primeiros encontros maiores chamavam-se assembleias gerais.
A Primeira Assembleia Geral da IMBISA em 1975
A primeira Assembleia Geral da IMBISA teve lugar no Seminário S. João Vianney, em Pretória, de 22-27 de Abril de 1975. O objectivo maior deste encontro era de estabelecer o que veio a ser conhecido por ‘Relatórios Situacionais’. Estes forma, até ao presente, relatórios sobre o desenvolvimento dos países membros e foram a base daquela troca de informação crucial para o planeamento e acção.
Tendo-se clarificado que o encontro representava oito países presentes: Angola, Botswana, Lesoto, Moçambique, Rodésia (hoje Zimbabwe), África do Sul, Sudoeste Africano (oje Namíbia) e Suazilândia (hoje Eswatini), foram apresentados relatórios. A ênfase era sobre os países e não tanto sobre as Conferências Episcopais membros de então. Os relatórios, deram, antes de mais, uma situação, muito actualizada, fundamentada em documentos, factos e números. A situação, as atitudes e a política da Igreja nestas circunstâncias era explicada com referência particular às relações existentes entre a Igreja-Estado.
Desta maneira, os delegados procuraram então estabelecer políticas comuns e planos de acção para os seus países. Previa-se uma ajuda indirecta dos países vizinhos e do SCEAM. A cooperação na África Austral foi discutida com vista a delimitar a Região Eclesiástica da África Austral.
Delegados da Primeira Assembleia Geral
- Angola: D. E. Nogueira de Sá (Bandeira), D. Zacarias Kamwenho, (Auxiliar de Luanda)
- Botswana: D. Urban Murphy, CP (Gaborone), Monsenhor Boniface Setlalekgosi (Gaborone)
- Lesoto: D. A.L. Morapeli, OMI (Maseru)
- Moçambique: D. A.J.M. dos Santos, OFM (Maputo), Pe. A. Barbosa, OFM (Sec. Maputo)
- África do Sul: D. J.P. Fitzgerald (Bloemfontein), D. E. Hurley, OMI (Durban), D. Buthelezi, OMI (Auxiliar de Joanesburgo)
- Rodésia: D. Francis Markall, SJ (Salisbúria), Pe. Richard H. Randolph, SJ
- Sudoeste Africano: D. Schlotterbeck (Keetmanshoop), D. Rudoph Koppman, OMI (Windhoek), Pe. E. Kangotui, Sr. Charles S. Hartung
- Secretário: Pe. Dominic Scholten, OP (SACBC)
Seis áreas de interesse
Nesta primeira Assembleia Geral foram definidas seis áreas de interesse:
- A necessidade de uma planificação comum, por parte dos Bispos, em relação às prioridades pastorais da região.
- A diminuição do número do clero e religiosos e a necessidade de recrutar pessoal local e formá-lo segundo as exigências da situação local.
- A necessidade de uma profunda educação cristã do laicado, em relação às suas responsabilidades sociais.
- A necessidade da promoção de um sentido cada vez maior de comunidade cristã, orientada para uma vivência intensa da fé cristã, segundo o evangelho e maior compromisso dos leigos em todos os aspectos da vida social, bem como o surgimento de uma forte liderança cristã.
- A necessidade da ‘localização’, isto é, da adaptação das formas litúrgicas, métodos de evangelização às culturas locais e às circunstâncias. Isto incluia, também a promoção do ministério local e liderança na Igreja.
- Uma avaliação da influência do Marxismo sobre os movimentos de libertação. Decidiu-se que um relatório fosse depois apresentado às Conferências membros.
Comissão Permanente
Para manter vivas estas iniciativas, criou-se uma Comissão Permanente, com a incumbência de organizar semelhante encontro para o ano seguinte. Esta Comissão era composta pelos membros fundadores: D. Fitzgerald, Arcebispo de Bloemfontein e D. Alexandre dos Santos, Arcebispo de Maputo. D. Morapeli e o Padre Scholten fizeram parte da Comissão. D. Fitzgerald e o Padre Scholten eram o presidente e secretário respectivamente. A Comissão Permanente assumiu responsabilidade directa da nova organização.
A Comissão reniu-se em Dezembro de 1976, em casa de D. Fitzgerald que entretanto tinha sido transferido de Bloemfontein para Joanesburgo. Estiveram presentes: D. Alexandre dos Santos, acompanhado pelo Padre Barbosa, D. Paul Koarai em substituição de D. Morapeli que se encontrava doente e o Padre Scholten, o secretário.
Foi neste encontro da Comissão Permanente, que se decidiu sobre a composição da Assembleia Geral. Sua Eminência, o Cardeal McCann devia ser convidado. Os leigos não seriam de convidar, sem preconceito de qualquer das decisões que a Assembleia Geral pudesse vir a tomar no futuro. Tendo em conta que Zâmbia e Malawi tinham desde sempre sido membros da AMECEA, salientou-se que os dois membros fossem convidados a enviar observadores e considerar a possibilidade de fazerem parte da IMBISA, talvez por causa da sua proximidade geográfica. Este encontro traçou as recomendações para a segunda assembleia geral.
Fontes
Marizane, António Santos. 2001. História da IMBISA Associação Inter-Regional dos Bispos da África Austral 1974-2001. IMBISA, Harare, pp. 13-17.
Em jornada sinodal por 50 anos
Em comemoração ao jubileu de ouro da IMBISA, formada em 1975, publicamos trechos da história uma vez por semana.