XIX Domingo do Tempo Comum – Ano A
1Rs 19,9a.11-13a; Sl 84; Rm 9,1-5; Mt 14,22-33
As leituras deste XIX Domingo do Tempo Comum convergem numa mesma questão teológica: como reconhecer a presença de Deus quando tudo parece indicar a sua ausência? Tanto Elias, como Pedro e Paulo atravessam uma crise de fé. No entanto, a revelação mostra que Deus permanece fiel precisamente quando a experiência humana é marcada pela fragilidade.
Na primeira leitura (1Rs 19,9a.11-13a), Elias encontra-se no Horeb, o monte da Aliança, o mesmo lugar onde Moisés contemplou a glória de Deus (Ex 33–34). O profeta, perseguido e desanimado, espera uma nova manifestação extraordinária do Senhor. Entretanto, Deus não está no vento devastador, nem no terramoto, nem no fogo, mas na “brisa suave”. Deus não se revela nas manifestações espetaculares, antes, na discrição da sua Palavra. A verdadeira experiência de Deus exige silêncio, escuta e discernimento.
O Evangelho (Mt 14,22-33) reforça esta pedagogia divina. Imediatamente após a multiplicação dos pães, enquanto Jesus permanece sozinho em oração, os discípulos enfrentam a noite e o mar agitado. Lembremo-nos de que, na Bíblia, o mar, frequentemente, representa as forças do mal e tudo aquilo que ameaça a realização do projeto de Deus (cf. Sl 74,13-14; Is 51,9-10) e o barco é imagem da Igreja peregrina na história.
O evangelista afirma que Jesus veio ao encontro deles durante a quarta vigília da noite, precisamente quando a escuridão atinge o seu ponto máximo. Esta é uma indicação de que Deus intervém quando toda a esperança humana parece esgotada.
A resposta de Jesus, “Coragem! Sou Eu. Não tenhais medo”, contém uma das mais importantes fórmulas cristológicas do Evangelho: a expressão “Sou Eu”, mais do que uma simples identificação pessoal, evoca o Nome divino revelado a Moisés (Ex 3,14) e identifica Jesus como o próprio Senhor, que vem com autoridade ao encontro do seu povo.
Pedro, figura do discípulo e da Igreja, pede para caminhar sobre as águas. Enquanto mantém o olhar fixo em Cristo, participa do poder do Mestre; quando contempla a força do vento, começa a afundar-se. Mateus quer, assim, ensinar-nos que a fé consiste em permanecer unido a Cristo mesmo quando as circunstâncias parecem contrárias.
Na segunda leitura (Rm 9,1-5), São Paulo exprime uma profunda dor porque muitos dos seus irmãos judeus não acolheram Cristo. Apesar disso, continua a acreditar na fidelidade de Deus às suas promessas. Isso revela que a evangelização não nasce do desejo de conquistar adeptos, mas do amor.
As leituras deste domingo iluminam profundamente a nossa realidade, hoje. Também nós conhecemos tempestades provocadas pela pobreza, pelas injustiças sociais, pelos conflitos armados e pelas crises ambientais. Contudo, a Palavra de Deus recorda que a história não é governada pelas ondas e pelo vento, mas pelo Senhor da história o qual repete à sua Igreja: “Coragem! Sou Eu. Não tenhais medo.” (Mt 14,27).
As tempestades não desaparecem, mas a presença do Senhor permite à Igreja atravessá-las sem perder a confiança. O Papa Leão XIV recorda-nos que esta é a missão da Igreja hoje: permanecer firme na esperança, vencer o medo e anunciar, com humildade e coragem, que Cristo continua vivo e presente no meio do seu povo.